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ARTIGO

Mário Jorge Lobo Zagallo

por JOSÉ TOMAZ FILHO

Zagallo sempre foi teimoso e inovador. Como jogador e como técnico. Enxergava à frente, como se fosse um estadista do futebol. No início dos anos 50, quando atuava no América do Rio, conquistou o passe livre. Um avanço extraordinário para um atleta, naquele momento. A estrela começava a brilhar. Foi para o Flamengo. Sagrou-se tricampeão carioca, em 1955, ao lado de Evaristo e Cia.

Mais tarde, em 1958, venceu a disputa com Canhoteiro e Pepe. Ganhou o Campeonato Mundial da Suécia como titular do Escrete de Ouro. O Brasil formou então o mais famoso ataque da seleção brasileira de todos os tempos. Garrincha, Didi, Vavá, Pelé e Zagallo.

Já nesta época, voltava para marcar. Fato inusitado. Telê fazia o mesmo no Fluminense, mas sem estrela, coisa que, de resto, o perseguiu até na seleção. Na Copa da Suécia, Zagallo foi visto tirando a bola da grande área do Brasil e, logo em seguida, marcando gol, como o assinalado contra a Suécia no jogo final.

Críticos consideravam uma afronta a presença de Zagallo na seleção. Na posição, havia Canhoteiro, que, afirmam alguns saudosistas, era o Garrincha da direita. Um exagero. O Mundo jamais viu um ponteiro como Garrincha.

Em 1962, no Chile, lá estava outra vez Zagalo conquistando o título pela “Canarinha”. Mais inovador do que nunca. Era a consagração do “Formiguinha”. Foi visto de novo tirando a bola da grande área do Brasil e fazendo gols, como o do jogo contra o México, na estréia.

Zagallo estava com 33 anos e o seu parceiro de ala esquerda, Nílton Santos, a “enciclopédia”, com 36. Os dois atuavam no Botafogo e Zagallo sabia que Nílton teria dificuldades para marcar pontas velozes, mesmo com a imensa categoria que o zagueiro tinha.

No jogo contra a Espanha, de Di Stefano, o treinador Heleno Herrera deslocou para a direita um ponta-esquerda velocista. Queria vencer pelo cansaço o lateral brasileiro. Lá estava Zagallo, por via das dúvidas, dando uma mão a Nílton. Foi o jogo mais tenso e dramático do Mundial. A briga particular entre Didi e Di Stéfano acirrara os ânimos.

O Brasil venceu por 2x1, dois gols de Amarildo. Perdíamos por 1x0, quando Nílton Santos cometeu pênalti. Como estava quase sobre a linha da grande área, com a malandragem e experiência habituais, Nílton deu um passo à frente, e o juiz, que estava distante, marcou a falta fora da área. Nílton e Zagallo trocaram um discreto riso cúmplice. Vale lembrar que nesse jogo, Pelé já estava fora da equipe. Que teve como suporte a base do Botafogo: Nílton Santos, Garrincha, Didi, Amarildo e Zagallo.

Zagallo conviveu com jogadores desse nível e mais tarde não teria dificuldades para se converter em treinador bem-sucedido. Ganhou títulos por onde passou. Duas Copas pela seleção, como jogador. Conquistou como treinador o título de 70, o quarto lugar em 1974, o vice em 1998 e o título mundial como coordenador-técnico em 1994. No futebol, não há paralelo de alguém tão vitorioso.

Zagallo assumiu o comando da seleção de 70 pouco antes do início do Mundial, sob a desconfiança da imprensa, que tinha em João Saldanha, um ídolo e um líder. Saldanha era do “Partidão” e o tempo era de contestação à ditadura militar. De cara, Zagallo mudou a lista, chamando, entre outros, o goleiro Félix, que Saldanha dispensara.

Antes de ser dispensado, Saldanha dirigiu a seleção contra a Argentina em dois jogos, no Rio (2x0) e em Porto Alegre (0x2). No confronto do Maracanã, a que eu assisti, o time tinha Leão, Carlos Alberto, Brito, Joel, Marco Antônio; Piazza e Gérson; Jairzinho, Dirceu Lopes, Pelé e Edu. O Brasil ganhou por 2x1. A equipe titular que jogou o Mundial do México: Félix, Carlos Alberto, Brito, Piazza e Everaldo, Clodoaldo e Gérson: Jairzinho, Tostão, Pelé e Rivelino. Seis alterações.

Na verdade, a base da seleção de 70 vinha da Copa de 66, na Inglaterra. Brito, Gérson, Tostão, Jairzinho e Pelé, além de Carlos Alberto, que participara do grupo, mas que fora cortado antes da viagem. Zagallo, com experiência e sabedoria, formou o time com o que havia de melhor. O que não deixa de ser formidável, considerando-se o que estamos vendo hoje.

Lamento que ele não tenha deixado o futebol após uma grande conquista.

Zagallo poderia ter encerrado a carreira bem antes, quando ganhou, por exemplo, o último tricampeonato do Flamengo. Ou quando foi vice-campeão mundial, na França. Ranzinza e teimoso preferiu continuar e agora deixa os gramados, ou a orla dos gramados, de forma melancólica.

José Tomaz Filho é jornalista

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Jornal do Commercio
Recife - 25.11.2001
Domingo