Luiz Maklouf Carvalho lança livro Cobras Criadas, contando a trajetória do repórter de O Cruzeiro, que ignorava fatos e ‘poetizava’ a verdade
por JOSÉ TELES
No livro Cobras Criadas – David Nasser e O Cruzeiro (Editora Senac), o jornalista Luiz Maklouf Carvalho desfia a história de do mais célebre jornalista do País até início dos anos 60, e, por tabela, a trajetória da revista que, em termos relativos, alcançou recordes de circulação até hoje não quebrados: 750 mil exemplares em 1954. David Nasser trabalhou por 30 anos ininterruptos em O Cruzeiro. Formou ali uma dobradinha imbatível com Jean Manzon, um francês que literalmente inaugurou o jornalismo fotográfico no Brasil.
A revista O Cruzeiro circulou de 1928 a 1975. Tornou a circular dois anos depois dirigida por empresários ligados à ditadura militar, mas teve duração curta e escandalosa. Ao longo de quase meio século, O Cruzeiro empregou os mais importantes jornalistas e escritores da época, nomes como Rachel de Queiroz, Murilo Rubião, Otto Maria Carpeaux, Austregésilo de Athayde, Eduardo Morel, Nelson Rodrigues, Jânio de Freitas, Millôr Fernandes, Péricles, Borjalo, Hélio Fernandes, para citar uns poucos.
Filho de imigrantes libaneses, Nasser (nascido em janeiro de 1917, em São Paulo) começou a trabalhar ainda criança, vendendo pentes e entregando pães, entre outros ofícios. Uma meningite deixou-lhe pelo resto da vida com um problema de coordenação motora (não muito grave). Isso provavelmente o tornou um leitor voraz, que começou a escrever cedo. Com 15 anos, já era contínuo de O Cruzeiro. Em 1936, estava em O Globo, tinha 19 anos. Sua primeira grande matéria no jornal de Roberto Marinho (tinha, então, 30 anos) foi cobrir a morte de Noel Rosa. Título de uma das matérias: Um Furto na Hora do Enterro de Noel Rosa. O furto realmente aconteceu – levaram o dinheiro levantado para ajudar à viúva –, mas a maioria do texto saiu da imaginação de David Nasser.
Era a fase do ‘nariz-de-cera’ (jargão jornalístico que indica uma introdução prolixa e, naturalmente, desnecessária) abrindo as matérias. “Manhã lúcida como um diálogo de Platão”, assim o redator-chefe de O Cruzeiro iniciava uma reportagem sobre Portinari.
A morte de Noel Rosa, por exemplo, recebeu este parágrafo escrito por Nasser: “O desenlace verificou-se subitamente, em virtude de um colapso cardíaco, quando palestrava com sua progenitora e sua esposa, recostado no leito, pouco antes da meia-noite”.