Em 1943, o jornalista David Nasser seria contratado por O Cruzeiro, com a promessa de um aumento polpudo no salário se a revista alcançasse os cem mil exemplares. Nessa mesma época, Jean Manzon chegaria ao Brasil, com um currículo que incluía publicações como a Paris-Soir e a Paris Match. Para a Match, conseguiu seu primeiro grande furo: fotos do bailarino Nijinski, internado há vinte anos em um sanatório, na Suíça. Manzon e Nasser seriam responsáveis por reportagens que fizeram O Cruzeiro esgotar edições. É bom lembrar que tais matérias originavam-se mais da fantasia do que nos fatos testemunhados. Numa série de reportagens na Amazônia, lê-se que o repórter testemunhou índios com rabo de macaco e “aves de estranhas cores, numa riqueza que supera a imaginação de Walt Disney”. Segundo revelou ao autor do livro o então diretor da revista, Accioly Neto, a ‘série amazônica’ foi realizada no Rio mesmo, no Jardim Zoológico, Quinta da Boa Vista e Barra da Tijuca.
Fora da cobertura da Segunda Guerra Mundial (os Associados enviaram Murilo Marroquim, Joel Silveira e Barreto Leite Filho), David Nasser nem por isso deixaria de escrever sobre o assunto. Em fevereiro de 1945, ele lançou seu primeiro livro, Só Meu Sangue É Alemão, com o subtítulo Confissões de Hans Peter – Marinheiro de Hitler. Trata-se de uma relato, ‘colhido’ por David Nasser, de um filho de alemães que vai morar na Alemanha e, para se livrar do nazismo, enfrenta aventuras mirabolantes. Um trabalho de ficção vendido como factual, inclusive com fotos do tal Hans Peter. Esse mesmo Hans Peter seria alvo de uma reportagem sobre sua morte em abril de 1964. Nasser, ao que parece acabava acreditando no que inventava, e os leitores também. A dupla chegou ao paroxismo do jornalismo ficcional numa matéria sobre a morte do próprio Jean Manzon, “atropelado por um auto na avenida Atlântica”. Caprichava o nariz-de-cera: “Um carro em disparada atropelou o repórter-fotográfico Jean Manzon. Em estado desesperador, a vítima foi levada ao Hospital Miguel Couto, onde, pouco antes de morrer, pediu ao médico que o assistiu para que seus amigos o enterrassem com sua máquina”. O texto era a abertura para uma reportagem intitulada A Vida dos Mortos. Foi uma comoção no Rio de Janeiro, o próprio Getúlio Vargas enviou uma coroa de flores, e mandou, irritado, desmentir o falecimento em cadeia nacional, ao sabê-lo uma farsa.
Ao contrário do que o bom senso poderia fazer acreditar, o falecimento de Jean Mazon, ilustrado com uma foto do morto, muito vivo, cercado por coroas de flores, deu a ele e a Nasser ainda mais prestígio junto a Assis Chateaubriand, o todo poderoso presidente dos Diários Associados. A matéria mais famosa da dupla culminou na primeira cassação de um parlamentar na história do Brasil. O deputado constituinte, pelo PTB, Barreto Pinto apareceu na revista de fraque e cuecas, e acabou perdendo o mandato por falta de decoro. O deputado jurou que os jornalistas chegaram em seu apartamento enquanto ele se vestia pra um jantar. Manzon prometera-lhe que o fotografaria de cintura pra cima. Outras versões dão conta de que a matéria foi encomendada pelo próprio Barreto Pinto, em fim de mandato. O fotógrafo Flávio Damn, que trabalhou algum tempo com Nasser, revela que a dupla foi paga para tirar as fotos, com a condição de que o deputado pudesse processá-los.
Em um artigo publicado em 1972, o diretor José Amádio conta que Nasser disse-lhe a respeito das suas inúmeras invencionices: “A verossimilhança é mais importante do que a verdade”. Dentro dessa ótica, valia tudo.
Em uma matéria sobre a esposa do ditador chinês Chiang Kai-Shek, que viera ao Rio para tratamento de saúde, Jean Manzon conseguiu um furo. Publicou uma foto de madame Kai-Shek na janela da clínica. Os companheiros de O Cruzeiro não tinham dúvidas de que a madame Kai-Shek era o próprio David Nasser vestido de mulher. O que poucos anos mais tarde seria confirmado pela própria madame, em uma entrevista concedida na ilha de Formosa ao repórter Francisco Luciano.
“Os fatos não eram importantes para o David, e sim a criatividade. Ele inventava coisas para valorizar as reportagens. Foi o Manzon que ensinou isso a ele”, a apologia é de Freddy Chateaubriand, sobrinho de Assis Chateaubriand.
Para Nelson Rodrigues, contemporâneo de Nasser em O Cruzeiro, “O fato em si não é nada. Não oferece nenhum conteúdo excepcional. Vem o Sr. David Nasser e lhe dá a poesia”. O hoje produtor cinematográfico Luís Carlos Barreto, que começou a carreira como fotógrafo, recorda que viajou com David Nasser para cobrir uma série de acontecimentos na Europa, entre eles o casamento da atriz Grace Kelly com o príncipe do Mônaco. Quando chegaram em Nice, lá os esperava o mais novo exemplar de O Cruzeiro, que já trazia a matéria sobre o casamento assinada pela dupla. “Foi para ganhar tempo”, desculpou-se Nasser.
Mais do que o poeta da notícia, segundo Chateaubriand, David Nasser era um jornalista de resultados. Resultados que não raro traduziam-se por ganhos materiais. Quando morreu em 1980, aos 63 anos, David Nasser era um homem rico.