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MEMÓRIA IV
Política, poesia e dinheiro motivaram o Turco

Cobras Criadas faz do biografado um leit motiv para se contar a história da evolução da imprensa brasileira entre os anos 30 e 70. Pelas páginas do livro, detalha-se desde a fase do nariz-de-cera à adoção do lead e sub-lead; o jornalista que não distinguia matéria paga de reportagem; a ascensão e queda dos Diários Associados; a fase áurea de David Nasser e seus inúmeros seguidores.

Tinha tanta força O Cruzeiro, que o Turco, como também o chamavam, era temido por Presidentes civis, aos quais desancava conforme o lado que o vento soprasse. Enquanto Getúlio Vargas foi ditador, ele se conteve nas críticas, quando o ditador caiu, tornou-se alvo preferido do jornalista. O mesmo aconteceu com Jânio, Goulart, e bem menos com os generais. Nasser esteve sempre ao lado dos golpistas de 64. Seus ataques a Leonel Brizola renderam-lhe uns sopapos desferidos pelo político gaúcho ao se cruzarem no Aeroporto do Galeão.

Essa foi a fase mais sombria da biografia de Nasser, a qual não faltam negociatas, artigos em defesa dos homens de ouro da polícia civil carioca, que formariam o Esquadrão da Morte. David Nasser foi o padrinho da Escuderie Le Cocq (sobrenome de um policial assassinado pelo bandido Cara de Cavalo), o esquadrão da morte mais notório do País. Seu caixão baixou o túmulo coberto com a bandeira da escuderia.

Mas havia também o David Nasser compositor, autor de pelo menos uma dezena de clássicos da velha guarda, ainda hoje regravados. David Nasser foi letrista inspirado. Entre seus parceiros estão Ataulfo Alves, Custódio Mesquita, Armando Cavalcanti, Luiz Gonzaga, Joubert de Carvalho, Zé Dantas, Lupicínio Rodrigues, Benedito Lacerda, Herivelto Martins e vários outros.

Algumas de suas músicas: Baião da Penha, Atiraste uma pedra, Vermelho 27, Carlos Gardel, Hoje quem paga sou eu, pensando em ti, Camisola do dia, Canta Brasil, Mamãe (aquela do avental sujo de ovo). Chico Alves, Nelson Gonçalves e Ângela Maria foram seus intérpretes mais constantes. Com Haroldo Lobo fez a maior quantidade de parcerias, uma delas, Fim de ano (gravada originalmente por Francisco Alves) se tornou praticamente de domínio público: “Adeus ano velho/ Feliz ano novo/ Que tudo se realize no ano que vai nascer/ Muito dinheiro no bolso/ Saúde pra dar e vender”.

Decidido a tornar-se rico aos 50 anos, David Nasser conseguiu seu intento, em detrimento dos muitos amigos que foi perdendo pelo caminho, umas das poucas exceções foi Assis Chateaubriand. Eles foram amigos até o final da vida do criador dos Diários Associados, mesmo depois de David Nasser o “cornear” (palavras de Chateuabriand) indo para a concorrente Manchete e processando O Cruzeiro.

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Jornal do Commercio
Recife - 25.11.2001
Domingo