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CURTO E GROSSO
José Teles

Carnaval fora de época no Afeganistão

Esse buruçu aí no Afeganistão, entre outros ensinamentos, ratificou a inclinação do homem (e da mulher também, minha senhora) pelo supérfluo. Ou melhor, corrobora, como vivia repetindo o pernambucano Nelson Rodrigues, não exatamente com essas palavras, que o supérfluo é gênero de primeira necessidade. Os afegãos, como ninguém ignora, passaram uns cinco anos sob a chibata e jugo do Taleban. Tirando rezar, jejuar e levar tiro de norte-americano, não lhes era permitido nada. Um adendo: chibata e jugo, modo de dizer, gente boa do Taleban, nada contra vocês. Tamos aí pra qualquer coisa, desde que não seja usar burka, nem doar minha coleção de CDs à pobreza.

Mas como dizia, depois dessa tergiversada meio covarde, prezadíssima centena de leitores (nunca mais arrebanhei nenhum. Vai ver cheguei no limite), vocês testemunharam pela TV. Mal os amigos de Bin Laden foram escorraçados pelas tropas do Norte, os afegãos caíram na gandaia. Os marmanjos trataram de fazer a barba, tomar banho, ligar o radinho de pilhas, ver TV, ir pro cinema. O mulherio botou a vergonha de fora (vergonha feminina, no Afeganistão, é o rosto, olha a maldade, minha senhora), correu pro cabeleireiro, enfim, o maior frege. Vi na televisão uma moça sendo entrevistada em um salão de beleza. Tava mais enfeitada do que índio de faroeste norte-americano.

Vai ver essa jovem afegã tenha se maquiado assim meio espalhafatosamente pra ir prum carnaval fora de época. Não seria surpresa pra este colunista, se estiver rolando um carnaval fora de época em Cabul. Um carnaval que deve ter sido batizado de Micabul, já que a outa hipótese, Micaganistão, soa meio indecente, e o povo afegão, pelo que se sabe, não é muito dado à indecência. Não me surpreenderia a realização do Micabul porque com esse pessoal de trio não há aiatolá, nem mulá que possa. E ademais, depois de correr tanto tempo de russos, talebans, norte-americanos, os afegãos encontram-se tão carentes de folia, que, pelo que conheço da raça humana, se rolar o Micabul, atrás do trio elétrico só não vai quem não conseguiu escapar de bomba ou mina.

A senhora decerto tá aí comentando que eu brinco com assunto sério. Mas por que não um carnaval fora de época pros afegãos? Eles não vivem o tempo todo enfrentando guerra fora de propósito? Um bregueço muito mais dispendioso, cansativo e perigoso? Além do que seria uma folia econômica. Os afegãos e afegãs nem precisariam sacar da poupança pra comprar as caríssimas fardas dos trios, já que no Afeganistão o abadá é usado por quase todo mundo, independente de época. Então o pessoal lá é só levantar os braços, apontar os indicadores para o alto, e correr atrás do trio, na base do “Alá laô ô ô ô ô/ Mas que calô ô ô ô ô”.

Não pensem os senhores leitores, e a senhora, leitora, que tô criticando o frege afegão, pelo contrário. Dou o maior ponto, acho que tem mais é que todo mundo cair na gandaia mesmo. Já que tamos no oriente, lembremos aquela frase, acho que de Confúcio, que se atribuem a Kung Fu Tzé udo quanto é frase besta e aparentemente profunda: “Se tiverdes no mundo apenas duas moedas. Com uma compre um pão e com a outra uma flor”. A flor aí é o indispensável supérfluo. No meu caso particular, em vez da flor eu comprava uma latinha de uma braminha da antarctica, talvez duas. Mas cá tô a tergiversar, pra variar.

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Jornal do Commercio
Recife - 25.11.2001
Domingo