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DINHEIRO CURTO
Natal dos Endividados

Desemprego, falta de aumento salarial para servidores e endividamento da classe média apontam para um Natal de poucos gastos por parte do consumidor

por LEONARDO SPINELLI

Demissões no setor privado, queda na produção das indústrias e funcionalismo público sem aumento há sete anos corroem o orçamento do classe média brasileira. Para completar, as pessoas estão cada vez mais enroladas em dívidas, um volume que vem crescendo desde o ano passado. Esse quadro recessivo deverá refletir nas vendas do Natal, que promete ser um dos mais duros dos últimos anos. “O valor médio das compras vai cair. O consumidor vai fugir do endividamento, comprando presentes mais baratos”, analisa o diretor territorial do N/NE e Centro Oeste do BBV Banco, Domingo Augusto Tedin.

Para se ter uma idéia, o setor produtivo pressiona cada vez mais os empregados. A Volkswagen chegou a demitir em massa 3 mil funcionários. Depois, reduziu em 15% seus salários. Empresas de metalurgia e outras indústrias estão seguindo neste vácuo. Para os trabalhadores, este tem sido um ano difícil nas negociações salariais.

Tomando em consideração este quadro e fazendo uma associação com o crescimento das operações de crédito, a situação piora. Nunca se emprestou tanto dinheiro no Brasil como hoje. De acordo com o Banco Central, as operações de crédito em Pernambuco cresceram 20,27% ao longo do último ano. Ou seja, o brasileiro está cada vez mais com seus recursos mais comprometidos.

Até mesmo o 13º, que sempre foi a salvação do comércio, pode não ajudar tanto neste final de ano. Somente o Bandepe registrou um crescimento de 300% nas antecipações de 13º, com taxas de 4,5% ao mês. Isso quer dizer que haverá menos dinheiro circulando no período natalino. No ano passado, primeiro ano desta modalidade de crédito, o banco emprestou R$ 1 milhão a mil clientes. Em 2001, a estimativa emprestar R$ 4 milhões e atender a 3,7 mil clientes atendidos. Vale lembrar que 70% dos 150 mil clientes do banco são servidores estaduais. “Trata-se de um ano a mais sem aumento. Este ano as pessoas estão mais apertadas”, constata o gerente de produtos do Bandepe, Sérgio Lemos.

Nos bancos particulares essa modalidade de crédito também teve demanda maior. O BBV Banco registrou um crescimento de 32%. “Ano passado as pessoas tomavam o empréstimo para comprar. Em 2001 as compras estão dividindo espaço com o pagamento de dívidas”, relata Augusto Tedin.

CRÉDITO – Em 2000 houve um boom nas ofertas de crédito. Isso fez com que as pessoas começassem a ficar endividadas, pois passaram a contrair outras dívidas por conta da diversidade de produtos. Primeiro compraram um carro, depois um DVD (houve uma febre dos eletroeletrônicos em 2001) e assim por diante. Tudo isso transformou o 13º salário na tábua de salvação do consumidor. Pior para o comércio, que deixará de vender.

Este é o caso do funcionário federal aposentado Marcos Vinícius Chagas. “Vou utilizar meu 113º para pagar dívidas. Vou cobrir o cartão de crédito, sair do SPC, pagar agiota e regularizar as prestações do meu carro”, disse. Esse fenômeno já é previsto pelo mercado. “Historicamente, dezembro é o mês de maior adimplência, pois a pessoa limpa seu nome. Em compensação, os três meses seguintes são os de maior inadimplência. É a ressaca dos pré-datados de Natal”, informa José Renato Dantas, diretor da Telecheque, empresa de verificação e garantia de cheques.

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Jornal do Commercio
Recife - 25.11.2001
Domingo