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Projetos no
semi-árido
O sertanejo tem sérias
razões para ver com certa desconfiança a revoada de
aviões no aeroporto de uma cidade importante como
Petrolina, conduzindo o Presidente e o Vice-Presidente da
República, acompanhados de quatro ministros e dois
governadores, para não falar nos inúmeros políticos e
autoridades que também chegaram, por estradas de
rodagem. Foi o que aconteceu na última quarta-feira,
quando se esperava o anúncio de mais um retumbante
programa de apoio ao semi-árido e combate permanente aos
efeitos das secas.
Cenas semelhantes se repetiram em diferentes pontos do
Nordeste, nas últimas seis décadas, e somente com muita
má vontade se poderia negar que muita coisa mudou na
região, a tal ponto que o atual governante máximo do
país pôde saborear uvas do Vale do São Francisco, e
tomar um cálice de vinho de boa qualidade, coisas
impensáveis antes que houvesse as linhas de transmissão
da Chesf, os financiamentos do BNB, o sistema de
irrigação da Codevasf, os projetos apoiados pela
extinta Sudene com ajuda de missões internacionais
vindas da Europa, dos Estados Unidos e de Israel.
Se há alguma diferença nítida entre esta viagem de uma
grande comitiva presidencial e outras que a antecederam
está em que o presidente Fernando Henrique Cardoso,
sendo um sociólogo em dia com o atual enfoque das
grandes instituições de ajuda internacional, em suas
falas dá menor ênfase aos trabalhos que exigem grandes
investimentos de infra-estrutura econômica (que só
rendem benefícios a médio prazo), e insiste no sucesso
imediato das iniciativas que impliquem em melhor
distribuição da renda familiar. Daí, haver enfatizado,
em Petrolina, que as ações do Governo Federal tinham
por objetivo beneficiar a população de baixa renda. E,
antecipando-se às críticas dos que consideram modestas
as aplicações do Tesouro agora anunciadas: Até
31 de dezembro de 2002 não farei gastos por pressão
política, nem vou maquiar o Orçamento. O recado
está dado e deve ser compreendido.
Essa posição presidencial está vários anos-luz
distanciada de outra, ocorrida um ano atrás, exatamente
a 15 de novembro de 2000, quando um dos seus então
ministros garantiu que ainda no atual governo seria
iniciada um antigo e discutível projeto de
transposição das águas do São Francisco (para o
semi-árido) e da revitalização do rio e seus
afluentes. Hoje, sabe-se que o rebuliço então
provocado resultou apenas em algumas despesas
preliminares para os estudos de viabilidade não
conclusivos. Com a saída do ministro e a posterior
revelação do choque energético provocado pela
diminuição do nível dos reservatórios das usinas
hidrelétricas, o Nordeste se dará por satisfeito se
não houver apagão em dezembro, e os campos já
irrigados continuarem recebendo água para a produção
de frutas tipo exportação e bons vinhos de mesa a serem
deglutidos nas festas natalinas deste ano.
Entre os projetos anunciados pelo presidente da
República em Petrolina, além do vale-comida,
que pretende atender a cerca de oitocentes mil famílias,
destaca-se o Seguro-Safra. Este beneficiará com a
importância de 600 reais o agricultor que perder a
produção de milho, arroz, feijão ou algodão, por
falta de chuva. Poderá atingir até um milhão e cem mil
famílias por ano, desde que trabalhem em áreas de até
10 hectares.
Outros três programas são chamados de sustentabilidade
hídrica, disseminação de tecnologias e sistema de
monitoramento e gestão climática. O somatório de
recursos destinados a eles não passa de R$ 1.563.900,00.
Tem razão, pois, o Presidente da República ao afirmar
que não vai, por se aproximar um ano de sucessão, fazer
gastos por pressão política, nem maquiar o Orçamento
Federal. Talvez o sertanejo pobre, habituado a promessas
mirabolantes que na maioria das vezes não são
cumpridas, entenda que é melhor mesmo ter a garantia de
pouco, do que a promessa de muito.
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Jornal do Commercio
Recife - 25.11.2001
Domingo
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