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SPORT DIVIDIDO I
Ilha cercada de crise

Segunda Divisão, dívidas, salários atrasados. Há três anos, tais palavras poderiam iniciar uma reportagem sobre qualquer equipe pernambucana, menos o Sport Club do Recife. Afinal, o Leão era o todo-poderoso. Papão de títulos, pagava salários em dia, tinha os melhores jogadores e ainda fazia boas campanhas na Primeira Divisão do Campeonato Brasileiro. Em julho de 99, começou a guerra. Primeiro, na surdina. Mas, no final de 2000, a bomba estourou. De um lado, os ‘urubus’, como dizia o ex-presidente Homero Lacerda. Do outro, os ‘xiitas’ (rebatizados de ‘talebans’), como diz a oposição. Independente de alcunhas, o fato é que o embate levou a Ilha a um processo de implosão. Na primeira parte da reportagem de Wladmir Paulino, um panorama da atual situação do Rubro-Negro. Amanhã, todo processo de divisão e declínio. Na terça-feira, o futuro segundo o presidente do clube, Fernando Pessoa.

No início do ano eram apenas duas as facções detectadas na Ilha do Retiro: a situação e a oposição, cujos membros eram taxados de urubus pelos partidários de Luciano Bivar. Quase um ano após a eleição que reconduziu o próprio Bivar ao poder, uma terceira força surgiu: os moderados. Tal corrente tem como um dos mentores ninguém menos que Homero Lacerda, presidente campeão brasileiro em 1987. Só que a ala mais radical do clube foi implacável. Peitou o então presidente do Conselho Deliberativo e praticamente o forçou a renunciar.

Para Homero, a situação do clube chegou ao absurdo, com agressões pessoais (mas não físicas) e muito ódio destilado. Ele lembra que no ano em que venceu as eleições contra Wanderson Lacerda, não houve divisão, briga, tampouco retaliações. “Ele me cumprimentou e nunca me atrapalhou em nada.”

O ex-presidente cita como exemplo de ânimos exacerbados a votação do título de persona non grata dado ao vice-presidente da FPF, José Joaquim. “Não posso presidir um conselho que rasga seu próprio regimento interno”, aponta. Mesmo com toda a guerra, Homero não perde a esperança em pacificar os ânimos. “Vejo uma ala mais moderada crescendo e continuo trabalhando. Temos grandes rubro-negros em todos os lados”, destaca.

Já o ex-presidente Wanderson Lacerda tem uma posição um pouco diferente. Para ele, não há outra maneira de o clube sair do buraco em que se meteu com os radicais – chamados, por ele, de talebans – no Conselho Deliberativo. “Esse conselho tem que renunciar para que seja feita uma nova assembléia-geral. Assim, o clube será oxigenado”, sugere.

Wanderson também contesta as acusações desta mesma ala mais radical de que a oposição seria culpada pela derrocada do Sport em 2001. “Gostaria que alguém me provasse que a oposição é culpada pelo saldo de R$ 12 milhões negativos no fim do ano passado e por um salário de R$ 5 mil para o chefe do setor de arrecadação”, questiona. Ele garante que rasga seu título de sócio-benemérito se for provado sua culpa ou de qualquer pessoa de seu grupo.

DEZ ANOS DE SOLIDÃO – Para o presidente que tirou o Sport da fila em 1975, o horizonte ainda é bastante negro na vida do Leão. Jarbas Guimarães é tão taxativo quanto grave na sua afirmação: se continuar do jeito que está, o Sport fica, pelo menos, dez anos sem conquistar títulos. “Não acredito em união a curto prazo”, destaca.

Para Jarbas, o Conselho Deliberativo não deveria ter aceito a renúncia de Luciano Bivar, pois o deputado federal reunia todas as condições para não deixar o clube no estado calamitoso. “Hoje, ele (Bivar) é o rubro-negro de maior prestígio nacional, é influente e capacitado para conseguir recursos”, diz.

Como isso não é mais possível, o ex-dirigente vê como saída o presidente Fernando Pessoa convocar uma nova assembléia-geral para os associados escolherem novo comandante e Conselho. “O clube está inadministrável. Se continuar desse jeito, vai ter que aparecer um novo Jarbas Guimarães.” Ele também concorda com a postura de Homero Lacerda em renunciar à presidência do Conselho e é contra o voto de persona non grata dado a José Joaquim. “Ele tem que ser respeitado, pois é um rubro-negro de gabarito”, elogia.

Do mesmo jeito que prevê mais dez anos de sofrimento, Guimarães anteviu o problema que se anunciara já há dois anos, ao final do Pernambucano. Jarbas chegou a se reunir com Bivar para tentar um acordo, pouco antes da eleição do ano passado, mas foi tudo em vão. “Enquanto prevaleceram a prepotência e a vaidade não haverá união”, vaticina.

O ex-dirigente lembra que na época em que assumiu, o clube também estava politicamente rachado, mas houve uma congregação de forças para tirar o Rubro-Negro do jejum de 12 anos sem um título estadual. Para tanto, dedicava 18 horas diárias ao Sport. E é justamente no quesito tempo que ele viu a falha de Bivar. “Como ele tinha muitas atividades, ficou ausente e delegou poderes a pessoas não-capacitadas.”

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Jornal do Commercio
Recife - 25.11.2001
Domingo