Parece exagero, mas 35% das mulheres brasileiras respondem “não” a essa pergunta. Para elas, o orgasmo continua a ser um grande desconhecido. É um dado preocupante, que mostra a verdadeira face da festejada sexualidade nacional
por BRUNO ALBERTIM
No país da nudez feminina a três por quatro, onde nádegas famosas capitaneiam a audiência dos principais programas de TV, uma parcela mais que significativa do mulherio, contraditoriamente, ainda não teve acesso ao pleno prazer. Uma pesquisa sobre o perfil sexual do brasileiro, coordenada pela professora e psiquiatra da Universidade de São Paulo (USP), Carmita Abdo, em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz e com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), constatou que 35% das mulheres brasileiras em idade sexual nunca chegaram ao orgasmo. Isso quer dizer que, em todo o País, pelo menos 27,8 milhões de mulheres nunca conseguiram atingir o ápice de uma relação sexual. Em Pernambuco, a situação não é muito diferente. Cerca de 31% da população feminina – 1,2 milhão de mulheres, pelo menos – estão no rol das sem-orgasmo.
“A baixa qualidade do sexo atualmente para as mulheres chega a ser um problema de saúde pública”, avalia Carmita. Por que, depois da pílula, do feminismo, do direito ao divórcio e à troca de parceiros e – mais importante – de ser considerada uma criatura sexualmente ativa, não apenas objeto de satisfação do parceiro, grande parte das mulheres brasileiras ainda não sabe o que é orgasmo? A resposta não é (como não poderia ser) simplória. Mas, de maneira geral, está relacionada ao silêncio que ainda se impõe nas relações. Vetado do quarto à sala de jantar, o assunto é tabu.
“Se elas conversassem com seus companheiros, dizendo qual a área do corpo poderia ser melhor estimulada, teriam uma vida sexual mais satisfatória. Os homens ainda não sabem que metade das mulheres, por exemplo, não têm prazer vaginal, e sim clitoriano”, diz a professora Carmita. Ou seja, o problema requer uma solução, como indicam as estatísticas, de uso bastante difícil nas relações: o exercício do diálogo e da intimidade.
Apenas quando seu marido descobriu a existência do clitóris, essa ‘peça’ fundamental da anatomia feminina, a universitária J.R.C., 27 anos, conseguiu obter seu primeiro orgasmo em quase 10 anos de vida sexual com vários parceiros. “Antes, eles achavam que introduzir o pênis era simplesmente tudo, nunca me deram espaço para que eu dissesse o que era necessário para a minha satisfação. Hoje, com a intimidade, digo exatamente o que meu marido precisa fazer e estou bem realizada”, conta ela, que insiste no anonimato.
ABANDONO DO SEXO – No Estado, o número de mulheres que não sentem desejo sexual por pouco não atinge metade da população feminina. Segundo a pesquisa, 43,9% das pernambucanas não sentem desejo, um número maior que a média nacional, em torno de 35%. “A mulher não sente vontade de iniciar a relação, mas, conduzida pelo marido, acaba atingindo um orgasmo”, aponta a psicanalista. “Sem autonomia na hora do prazer, a mulher ainda encara a relação como uma obrigação conjugal”, diz Carmita.
Desestimulada pela baixa qualidade das relações, há mulheres que radicalizam: abandonam o sexo. Atualmente, 4,8% das pernambucanas não possuem vida sexual. Aos 28, depois de 12 anos de frustrações na cama, a também estudante R.S.J. acredita que jamais voltará a fazer sexo. Já está abstêmia há quatro anos. “Depois que minha filha nasceu e me separei, esqueci isso. Não me faz falta. Transava para satisfazer meu marido, torcendo para que ele ejaculasse rápido para aquela coisa acabar”, conta ela, que diz nunca ter sido alvo de carícias preliminares ao ato sexual. “Não preciso de sexo para ser feliz”, acredita.
Carmita Abdo, que lançou sua pesquisa pioneira durante um recente congresso nacional de psiquiatria, ocorrido no Recife, diz que a anorgasmia ainda está relacionada à saúde mental. “É como um ciclo. A insatisfação sexual conduz à depressão e essa também provoca frustração no prazer”, aponta. Em Pernambuco, o número de deprimidos, segundo dados do Ministério da Saúde, é menor que a média nacional. Fica em 25,2%, enquanto no País as estatísticas apontam 29%.
“A liberação sexual, que vinha num crescente desde os anos 70, sofreu um enorme retrocesso com o advento da Aids, o que afastou um pouco as mulheres do conhecimento pessoal necessário ao sexo. A descarga de enzimas e endorfinas que causam bem-estar no corpo, durante o orgasmo, é um dos componentes da felicidade”, diz a médica que observa, no Projeto Sexualidade, um serviço de atendimentos a casais que ela coordena na USP, um aumento de mulheres em busca de informações que possam melhorar o desempenho erótico. A qualidade da vida sexual da brasileira , cuja freqüência, segundo a pesquisa, é de três relações por semana, está nos mesmos níveis do que ocorre em outros países. Mas, ao contrário de lugares frios e historicamente moralistas, como os Estados Unidos e a Alemanha, o Brasil sempre foi pródigo em criar mitos sobre liberdade sexual. Agora, com a pesquisa, sabe-se que vários deles são falsos.