Sem aparecer, mas atuando muito nos bastidores, Edgar Moury impõe poder em quase todas as secretarias. Sem procurar ser simpático
por ANA LÚCIA ANDRADE
É de conhecimento de todos que trabalham com o governador Jarbas Vasconcelos (PMDB) sua característica de delegar atribuições e legitimar as pessoas a se conduzirem como bem entendem. Mas o que poucos devem ter se dado conta é que o governador exerce, sim, um acompanhamento rigoroso do que está sendo feito. Sem precisar, sequer, desfazer o ‘tipo’ que construiu. A voz de Jarbas ecoa em todos os cantos do Governo na pele do secretário Extraordinário de Coordenação, Edgar Moury Fernandes.
Não tem uma pasta do Governo – talvez a exceção seja a de Desenvolvimento Urbano e Projetos Especiais, do tucano Sérgio Guerra – que não tenha o dedo de Edgar. Sem ser convidado, e guiado pelo ‘faro’ de que as coisas estão fugindo ao gosto do governador, Edgar faz, desfaz, como se fosse o próprio governador. Porque é assim que todos o vêem.
“A sensação que eu tenho é de estar conversando com o próprio Jarbas. Nunca conversei com Edgar para não sair com uma solução. Na minha pasta ele manda”, confessou, em reserva, o titular de uma secretaria.
Da burocracia que engessa a máquina, passando por desentendimentos entre secretários, ou ainda pelas decisões sobre os projetos macro do Governo, tudo está à sombra do “sombra do Poder”. Tantas atribuições, legitimadas por uma relação de três décadas na convivência do governador, fizeram de Edgar Moury Fernandes o único secretário que nunca teve uma função específica. Nenhum secretário é capaz de definir em que espaço de sua pasta Edgar mete a mão. Depende do momento e da necessidade, determinados por ele, Edgar.
A condição de secretário de uma pasta específica (quer dizer, nem tão específica assim) é só para colocá-lo de “igual para igual” aos demais na estrutura governamental. Daí, a alucinante idéia da Secretaria Extraordinária de Articulação. Sem metas a atingir, mas com muito poder de fazer. A lógica é a de que “quanto menos ele aparece, mais ele age”.
Em todas as administrações Jarbas, Edgar foi espaçoso. Somente na primeira gestão de Prefeito do Recife, e por esbarrar em impedimento constitucional, é que Edgar Moury Fernandes não assumiu nenhum posto no Governo. Na ocasião, ele exercia mandato de deputado estadual. E os parlamentares só puderam acumular mandato com cargos no Executivo depois da Constituição Federal de 1988.
A lógica leva à tese de que para o sucesso do desempenho de um secretário, com tantos trâmites, é necessário que esse seja dotado de simpatia e habilidade incomuns. Pois Edgar Moury Fernandes não tem nenhuma coisa nem outra. Pelo contrário. Até entre os que gostam pessoalmente dele, não é preciso muito esforço para arrancar um desabafo do tipo: “Edgar é um porre. É intolerante, autoritário, um chato mesmo”, revela um. “Edgar é tão chato que eu acredito que ele deve se olhar no espelho, todos os dias, e dizer isso para ele mesmo”, confessa outro.
Como explicar, então, a capacidade de Edgar Moury de sempre operacionalizar as coisas de forma a sair tudo como ele queria? Ou melhor, como queria o governador? Exatamente por isso. Porque ele fala – seja de que maneira for – em nome do governador Jarbas Vasconcelos.
“Jarbas dá a ele total e irrestrita confiança. Tudo que incomoda Jarbas, ele manda Edgar resolver”, revela um governista próximo ao governador. É tudo que o “inábil” e “antipático” Edgar precisa para se legitimar como o “sombra” do governador Jarbas Vasconcelos.