Esta é a primeira vez, em três anos de Governo Jarbas Vasconcelos (PMDB), que o secretário Extraordinário de Coordenação, Edgar Moury Fernandes, concede entrevista para falar de assuntos gerais. O JC tentou, sem sucesso, em outras ocasiões ouvir o secretário. Mesmo ciente das desanimadoras ponderações, vindas de várias partes do Governo, de que Moury Fernandes “não aparece”. Para esta entrevista à repórter Ana Lúcia Andrade, foram necessários apenas dois telefonemas. E o secretário confirmou que falaria. Coincidência ou não, em meio ao tiroteio entre Polícia Militar e Palácio das Princesas, motivado pelo projeto (agora lei) que altera os critérios de promoção da corporação. O secretário teve participação decisiva na aprovação da matéria pela Assembléia Legislativa. Edgar ainda questionou o propósito da entrevista. “Por que vocês não colocam no jornal coisas de interesse da população?”, indagou, minutos antes da conversa. “Vão gastar papel com quem não tem importância”, completou. Mesmo resistente e reticente em alguns assuntos, Edgar não deixou de responder a nenhuma das questões levantadas. Até demonstrou entusiasmo com a conversa – muitas vezes contido pela secretária de Imprensa, Teresinha Nunes, que acompanhou toda a entrevista –, e terminou por confirmar o status de “o sombra do Poder” que ocupa nos Governos Jarbas Vasconcelos.
JORNAL DO COMMERCIO – O que o sr. faz exatamente, quais são as suas atribuições como secretário de Coordenação Extraordinária?
EDGAR MOURY FERNANDES – Na prática, por exemplo, há projetos que tem interface de mais de uma secretaria, eu convoco a equipe, faço com que as coisas aconteçam. A burocracia é grande, a máquina é pesada. Então, até por estilo, fica mais fácil pra mim, pois não disputo mandato. Terminei meu mandato em 1987 e de lá para cá não tenho mais pretensão de ser candidato.
JC – Perdeu o interesse em disputar mandatos por que?
EDGAR – Cansei de falar. Agora quero fazer. Sou secretário de Estado pela segunda vez (foi secretário de Administração do Governo Arraes) e fui secretário na segunda gestão municipal de Jarbas Vasconcelos. Era secretário de Projetos Especiais. Secretaria pequenininha, sem ninguém. A secretaria, na realidade, era eu. As coisas que faço são indelegáveis.
JC – Qual é o seu estilo?
EDGAR – Chego junto aos secretários para tentar resolver as coisas, ver onde elas estão pegando, fazer com que ocorram. Isso para mim é mais gratificante do que um mandato parlamentar. Gosto da ação, de decidir na hora.
JC – Mas essa autonomia demanda dispor de uma credibilidade grande do governador...
EDGAR – Essa legitimidade a gente conquista com o tempo. Comecei como chefe de gabinete do governador Paulo Guerra, com 20 anos. Hoje tenho 57 anos, dos quais 37 só de vida pública. Ninguém é o que é da noite para o dia.
JC – Como se construiu a relação de confiança com Jarbas?
EDGAR – No dia-a-dia, no embate parlamentar, na reestruturação partidária, nas posições políticas de horas decisivas. Conheci Jarbas em 71, na Assembléia, quando ele tomou posse. Na minha avaliação é isso. São posições que a gente tem durante a vida, sem subterfúgio. Nada melhor do que você ser sim sim, não não.
JC – “Sim sim, não não”? O que significa exatamente?
EDGAR – Às vezes as pessoas se surpreendem porque a minha formação é política. Porque político, no mal sentido, é enrolão, aquele que conversa demais, que promete. Eu sou o contrário: não prometo nada, não engano ninguém, não deixo ninguém sem retorno. É sim sim, não não. Aos que vêm aqui, quando eu digo sim eu faço, quando é não é não. E pronto.
JC – O que se fala é que o sr. diz o que Jarbas gostaria de dizer e não tem coragem?
EDGAR – Acho que não. Mas as pessoas têm suas avaliações. Procuro ser o máximo que eu sou e, sem agredir as pessoas, dizer o que acho e penso. O que me dá uma condição diferenciada é a experiência de vida pública, a relação mais estreita com o governador, por não disputar mandato, por conviver com Teresinha (Teresinha Nunes, secretária de Imprensa) há mais de dez anos, com o governador há 30, com Cadoca (Carlos Eduardo Cadoca, secretário de Desenvolvimento Econômico) que foi meu censor no colégio.
JC – Quando perguntei sobre suas atribuições o sr. disse que fazia “tudo”. O sr. tem ingerência nas secretarias?
EDGAR – Quando os secretários pedem, é evidente que faço. Até porque o meu trabalho é esse: fazer com que as coisas aconteçam, tanto aqui, como em Brasília, como em outro lugar.
JC – Como é o seu dia-a-dia?
EDGAR – Agora estou chegando um pouco mais tarde porque o expediente com o apagão começa às 9h. Chego entre 8h30 e 9h e só saio quando o governador sai. Normalmente entre 18h30 e 20h.
JC – E a relação com os secretários? Para “fazer as coisas acontecerem” não é preciso uma convivência diária com eles?
EDGAR – Recebo todos, quem quiser. Alguns me procuram, mas há ocasiões em que me interesso, acho que as coisas não estão andando, e pergunto se quer ajuda. Despacho todos os dias com o governador: expediente de outros secretários, pedidos de recursos, viagens. Tenho a competência, delegada pelo governador, para autorizar viagens para dentro e fora do País. Para desobstruir essa burocracia e evitar que o governador assine um expediente enorme todos os dias sem necessidade.
JC – O que se comenta é que o sr. teria inserção maior na Segurança. Não apenas pela sua relação histórica com o ‘aparelho policial’, o fato de seu pai ter sido delegado e secretário de Segurança, mas porque o sr. teria interesse pelo assunto...
EDGAR – Não, nenhum. A minha inserção é em todo canto. Alguns secretários, sobretudo os que estão aqui no Palácio, se inserem em todo canto. Convidados ou não. Depende do grau de interesse que se tem e do tamanho do espírito público de cada um. O que acontece é que, com a revolução de 1964, quando os militares ficaram execrados, muita gente tem prurido em ter contato com militar. Eu não tenho isso. Estou tranqüilo. Não me preocupa o que pensam de mim. O importante é o que acho e penso. Tenho certeza que lhe disseram que eu sou chato, cabuloso. Sabe qual é o problema? É que eu não falo com quem não conheço. Por formação, não me vêem em badalação, em inaugurações que eu ajudei... Até aqui no Palácio: eu entro por uma porta e saio pela outra.
JC – Mas a função também exige essa discrição?
EDGAR – Não, é por formação mesmo. Não sei, não gosto. Ou não gosto mais. Não vou a inaugurações, não viajo com o governador, não tenho mais vontade. Prefiro ficar resolvendo os pepinos. Deixa isso para os que têm obrigação de ir. Para que eu ficar atrás do governador?
JC – Voltando à Segurança, como avalia a reação da PM ao projeto do Governo que altera o critério de promoções da corporação?
EDGAR – A reação foi dos que serão atingidos. A gente pode pedir tudo às pessoas, menos que elas se suicidem. O projeto tem o apoio de mais de 90% da corporação. Reagiram os que têm amigos na Assembléia, que têm 30 anos de serviço público, que trabalharam com alguém...
JC – O sr. acredita, então, que foram reações pessoais?
EDGAR – É evidente. Qual é o argumento para ser contra?
JC – Os argumentos são os de que o governador estaria pretendendo formar o seu grupo de confiança na PM...
EDGAR – O quadro de acesso, que significa as pessoas que concorrem às promoções do dia 20 de dezembro, foram definidas por essas que estão saindo. Pelos que fazem parte da comissão e por outros, que não fazem parte, mas pressionaram. O governador não vai mexer em nada. Para não lhe enganar, o ajudante de ordem do governador está em 40º lugar. Então, não é verdade o que estão dizendo. Isso tudo é tempestade em copo d’água. Os coronéis, sabidamente, estão esticando a corda, com relação ao problema disciplinar, para responder ao IPM (Inquérito Policial Militar). Porque de acordo com o Código Militar, quem responde a IPM não pode ir para a reserva.
JC – E a permanência do coronel Iran Pereira no comando da PM? O que se comenta é que o sr. é o único que tem a resposta para essa pergunta.
EDGAR – Estou ouvindo isso pela primeira vez. Iran Pereira se sustenta porque foi colocado pelo governador. É evidente que o governador é uma pessoa democrática e não toma decisões sozinho. Iran foi colocado lá por uma decisão de Governo.
JC – “Decisão de Governo” inclui quem?
EDGAR – Inclui os secretários.
JC – Toda a equipe?
EDGAR – Se não todos, os que se interessam.
JC – O sr. poderia citar nomes?
EDGAR – Não, não é bom. Eu posso esquecer algum e não fica agradável. Iran Pereira se sustenta pelo trabalho, pela coragem, pelo caráter, pela lealdade. Ninguém sustenta incompetente. E longe de mim ter condições de sustentar quem quer seja, muito menos o comandante da Polícia Militar. Eu conheci Iran no Governo. Não tenho relação pessoal com nenhum deles (coronéis). Nem com os que estão saindo, nem com os que ficam. Conheci todos depois que fui secretário.