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PM
Política dá as cartas na PM

por CIARA CARVALHO e INALDO SAMPAIO

A Polícia Militar que é paga para proteger o cidadão tem gastado mais tempo discutindo política do que combatendo a criminalidade. Diante da crise que se instalou no Quartel do Derby, essa interferência política excessiva saltou aos olhos e deixou evidente que essas estreitas relações não agradam apenas aos governos, mas é alimentada pelos próprios oficiais da PM. De hoje até terça-feira, o Jornal do Commercio discute, numa série de reportagens, as implicações dessa ingerência, as mudanças vívidas pela corporação nos últimos anos e os principais personagens que estão no centro da crise. Amanhã, o JC mostra que, assim como Jarbas, outros governadores também tiveram seus momentos difíceis no trato com a corporação.

A onda de insubordinação que varre a Polícia Militar de Pernambuco serviu para colocar o dedo numa ferida antiga da corporação, que só agora está exposta claramente para a sociedade: a forte ingerência político-partidária que existe dentro do Quartel do Derby. A PM, hoje, é uma instituição minada por grupos políticos, que disputam espaço entre si e colocam o problema da segurança pública em segundo plano. A recente queda-de-braço entre o governador Jarbas Vasconcelos (PMDB) e o alto comando militar mostrou que o jogo da política partidária na instituição, que sempre foi estimulado por todos os governadores, terminou se voltando contra o próprio Palácio das Princesas. Ao promover os líderes da greve de 97, Jarbas tentou formar seu grupo político. Fez a aposta errada e, agora, teve que recorrer à Assembléia Legislativa para não correr o risco de perder o controle total da corporação.

Uma prova de que na Polícia Militar a política está infiltrada até a medula é o próprio perfil de alguns dos coronéis que entraram na briga contra o comandante-geral Iran Pereira – o pivô da atual crise e um dos raros aliados de Jarbas na instituição. O coronel Adilson José da Silva passou vários anos fora da Polícia Militar, trabalhando com Roberto Magalhães (PSDB), quando ele foi governador de Pernambuco e depois prefeito do Recife. Já o coronel José Quintino Guimarães Júnior ocupou, durante quase seis anos, o posto de assistente militar da Assembléia Legislativa. Se for para a ponta do lápis, dos 13 coronéis da Polícia Militar que hoje estão na ativa, apenas um não possui vinculação política ou ocupou cargos de confiança do Executivo ou do Legislativo.

A forte politização dentro da PM inverteu até a lógica de que, na política, não se bate nos próprios aliados. Quem assinou a carta com denúncias de irregularidades contra Iran Pereira e criticou o projeto do Executivo de reduzir o tempo de permanência dos coronéis na ativa foram, em sua maioria, os oficiais alinhados a Jarbas ou aos políticos da aliança que governa Pernambuco. Mas o que fez a criatura se virar contra o criador? Para o cientista político da Universidade Federal de Pernambuco Jorge Zaverucha, essa pergunta tem, pelo menos, duas respostas: a inabilidade política do Governo para lidar com os coronéis e a insistência de Jarbas em manter Iran no poder, quando já está claro que ele não tem mais o apoio do alto comando da corporação.

Zaverucha defende que, assim como outros governadores, Jarbas só fez perpetuar a visão de Estado patrimonialista que existe em relação à Polícia Militar. “A PM é tratada como se existisse apenas para defender interesses privados, de grupos políticos. A questão da segurança e do interesse público termina virando um aspecto secundário”, avalia. O problema é que alterar essa lógica patrimonialista significa ter que fazer uma reformulação no atual modelo de Polícia Militar e, claro, reduzir as interferências políticas dentro da instituição. O preço é alto e até hoje nenhum governador se mostrou disposto a pagá-lo.

PROPOSTA – Jarbas teve sua oportunidade, logo no início do mandato, quando recebeu das mãos do Comando da PM, na época chefiada pelo coronel Roberto Carvalho, um projeto propondo mudanças no quadro de promoção de oficiais. O documento defendia critérios mais claros e objetivos para escolha dos promovidos e a paridade dos critérios de merecimento e antigüidade para promoção dos policiais. A proposta chegou a receber o apoio do então secretário de Defesa Social, o coronel do Exército Adalberto Bueno.

O projeto, no entanto, foi engavetado por mexer num assunto delicado e polêmico: o governador teria que respeitar a ordem de classificação dos candidatos apresentada pela comissão de promoções da PM. O objetivo era garantir que os primeiros colocados fossem promovidos, sem depender de interesses políticos. A reação do Palácio foi pragmática: se aprovasse o projeto, o governador perderia o poder de escolha, ficaria engessado e passaria a ser um mero carimbador. Na prática, a decisão final estaria nas mãos da própria PM – uma novidade que não agradou nem um pouco ao Governo.

Apesar de não ter aceitado abrir mão do poder de interferir em quem deve ou não ser promovido entre os oficiais da PM, Jarbas Vasconcelos defendeu, na última quinta-feira, que a “polícia não pode ser instrumento do governador”. “Não movi nenhuma palha para politizar a Polícia Militar. Nunca criei um grupo político dentro da polícia”, afirmou. No Quartel do Derby, a declaração do governador teve pouco impacto. “Ele diz isso, mas acabou de sancionar um projeto casuístico, que tem como objetivo justamente aumentar a base de apoio político do Governo dentro da PM”, afirmou um oficial do alto comando da Polícia Militar.

É fato que, embora possa “oxigenar” a instituição, a nova lei de promoções aprovada com tranqüilidade pela Assembléia Legislativa terá um resultado político bem mais específico: vai elevar ao posto máximo da corporação um grupo de tenentes-coronéis que dificilmente trarão problemas para o governador no seu último ano de Governo.

Nos bastidores da PM, já existe até uma especulação de que um dos prováveis promovidos, o tenente-coronel Weldon Nogueira (hoje no Comando do Policiamento da Região Metropolitana), poderá ser a nova aposta de Jarbas para o comando da Polícia Militar. Sem espaço entre os atuais coronéis, Jarbas parece ter recorrido à velha solução de sempre: promover o seu próprio grupo como estratégia para apaziguar as difíceis e cada vez mais tensas relações entre o Palácio das Princesas e o Quartel do Derby.

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Jornal do Commercio
Recife - 25.11.2001
Domingo