Reza a cartilha da política que o principal papel de um assessor é não criar problemas para o seu chefe. Desde que o coronel Iran Pereira entrou para o Governo, ele tem feito justamente o contrário. Passou cerca de um ano e meio à frente da Secretaria de Defesa Social e saiu sem conseguir reduzir os índices de criminalidade em Pernambuco. Quando todos esperavam que o fraco desempenho fosse arranhar seu prestígio, veio a surpresa: ele foi premiado com o comando da Polícia Militar. De volta ao quartel, teve que enfrentar a insatisfação do alto escalão da PM e, sete meses depois, já está no centro de uma nova crise, dessa vez, sendo acusado até de improbidade administrativa. Diante de tanta exposição negativa, o estranhamento é natural: por que o governador Jarbas Vasconcelos mantém Iran no poder?
A pergunta, na verdade, é muito difícil de ser respondida. Parlamentares de oposição, cientistas políticos, policiais civis e militares e até pessoas ligadas ao Governo não conseguem explicar exatamente porque um político pragmático como Jarbas, que precisa de resultados imediatos na área de segurança, insiste em ter Iran Pereira à frente da Polícia Militar. Hoje, sobretudo depois da crise envolvendo o grupo de coronéis da PM, a explicação pode ser resumida numa questão prática: falta de opção.
Como não confia na maioria dos coronéis, Jarbas não tem mais a quem recorrer dentro do alto comando. Se tirar Iran, vai botar quem no lugar? O único que poderia assumir o posto é o coronel Pero Vaz Caminha, atual chefe do Estado Maior e ex-chefe da Casa Militar. Mas, nos bastidores, há informações de que o nome de Pero Vaz não seria bem aceito por parte dos assessores do governador. E, enquanto a aposta nos novos coronéis (que serão promovidos em dezembro) não vira realidade, Jarbas tem que se virar mesmo é com Iran.
Na realidade, conta muito a favor do atual comandante da PM uma característica que todo político valoriza muito nos seus auxiliares mais diretos: a lealdade. E Iran tem dado provas incontestes que tem sido leal ao governador. Tanto que uma das principais críticas feitas pelos oficiais e praças é que Iran Pereira não é um integrante da PM dentro do Governo, mas um representante do Governo dentro da Polícia Militar. Pelas posturas que adotou durante a greve (chegou a vestir o uniforme de guerra da PM), principalmente na negociação salarial com os oficiais, Jarbas Vasconcelos pode ficar tranqüilo que, enquanto estiver no poder, Iran vai sempre defender os interesses do Governo.
Tanto prestígio também teria, segundo fontes da PM e do Governo, uma base de sustentação forte: o poderoso secretário de Jarbas, Edgar Moury Fernandes. Com grande influência na área de segurança, Edgar se entendeu muito bem com Iran Pereira e não economiza elogios para o coronel. Uma prova da aproximação dos dois assessores é que, quando era secretário de Defesa Social, Iran tinha trânsito livre com Edgar. Hoje, mesmo como comandante da PM, ele continua despachando diretamente com o secretário.
Os críticos de Iran não perdoam e dizem que essa afinidade só existe porque Iran permite que Edgar se intrometa, mais do que deve, nos assuntos da Polícia Militar. “Com o coronel Roberto Carvalho a conversa era outra. Ele não aceitava certas interferências e imposições do secretário em relação à corporação. É por isso que tinha gente que reclamava da ‘inabilidade’ de Carvalho para lidar com os assuntos políticos”, conta um oficial da PM.
A prova mais recente da força de Iran Pereira foi dada na semana passada, quando, diante das denúncias de irregularidades apresentadas contra o coronel, o Governo logo se apressou em prestar apoio total ao comandante da PM. Uma atitude que o cientista político Adriano Oliveira diz que precisa ser explicada à população, tamanha é a estranheza do fato. “O Governo de Pernambuco não está prestando contas à sociedade dos resultados dos seus secretários. O governador precisa justificar por que razão Iran Pereira continua na equipe, se a sua atuação tem sido desastrosa na área de segurança”, defende. Hoje, mais do que nunca, essa é pergunta que não quer calar.