A primeira contestação frontal dos coronéis da PM à autoridade do comandante Iran Pereira ocorreu no início deste ano, no Palácio do Campo das Princesas. Em meados no mês de fevereiro, reuniram-se na antiga residência oficial dos governadores (segundo andar), para tratar do reajuste dos soldos dos militares: o vice-governador, Mendonça Filho, os secretários Maurício Romão (Administração), Humberto Vieira (Justiça), Edgar Moury Fernandes (Coordenação) e Iran Pereira (Defesa Social), o procurador-geral do Estado, Sílvio Pessoa, e a chefe da gabinete do governador, Lúcia Pontes.
Depois que o secretário Maurício Romão apresentou a proposta do Governo, de transformar a remuneração dos militares em “subsídio”, substituindo todos os tipos de gratificação por um salário “xis”, os coronéis reagiram. O primeiro a falar foi Adilson Gomes, então o mais antigo, e que fora assistente militar de Roberto Magalhães tanto no Governo do Estado como na Prefeitura do Recife.
Disse ele: “Na vida militar quem fala primeiro são os chefes. Mas já que nenhum dos que aqui estão presentes deseja fazer uso da palavra, eu gostaria de me posicionar. Essa proposta do Governo é inaceitável. Se transformarem a nossa remuneração em subsídio, variáveis como antigüidade, cursos de aperfeiçoamento, localização, não valerão mais nada, porque todos passarão a ganhar a mesma coisa. É um desestímulo à carreira dos oficiais”.
PAVIO CURTO – Conhecido na oficialidade por seu “pavio curto”, o coronel Ivo Freitas pediu e palavra e disparou: “O que estão fazendo com a Polícia Militar é uma grande sacanagem”. Foi repreendido por Lúcia Pontes. Em seus muitos anos de atividade política, disse ela, jamais tinha se deparado com expressões chulas como aquela em reuniões daquela importância.
Então secretário de Defesa Social, o coronel Iran Pereira também repreendeu o subordinado: “Não admito que o senhor se expresse nesses termos”. O coronel Ivo Freitas não deu nenhuma importância à repreensão. De dedo em riste, retrucou: “Fica calado aí, rapaz, que eu te conheço”. Criou-se um grande mal-estar na sala, a ponto de o vice-governandor, Mendonça Filho, ter sido obrigado a intervir para não tumultuar a reunião. Classificou de “infeliz” a intervenção do coronel, mas parou por aí. A partir desse episódio, disse um dos oficiais que estavam presentes, ficou provado que Iran Pereira não tinha liderança no meio da tropa.
Mesmo assim, ele foi nomeado para o Comando Geral da PM, após a sua exoneração da Secretaria de Defesa Social. Sua relação com os outros coronéis sempre foi tumultuada, a ponto de o grupo que acaba de ser prejudicados pela lei aprovada pela Assembléia Legislativa suspeitar da existência de “vingança política”.
Na opinião desses coronéis, a PM nunca aceitou ser “politizada” porque não é uma “coisa sadia” para a instituição vincular-se ao Governo “A” ou ao Governo “B”. Mesmo assim, diz o coronel Adilson Gomes, ex-sub-chefe do Estado-Maior: “O Governo entende que o coronel tem que ser aliado do Palácio, e isso nós não aceitamos”.
Eles responsabilizam Iran pela “politização” do alto comando dizendo que ele absorveu essa cultura quando foi cedido à Assembléia Legislativa, há 15 anos, para trabalhar como assistente militar do então presidente Osvaldo Rabelo.