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LITERATURA Panorama amplo da nossa poesia
O estojo contendo dois volumes de 100 Anos de Poesia é resultado de uma pesquisa séria que não contemplou apenas os poetas do Sul e Sudeste
por SCHNEIDER CARPEGGIANI
Nos últimos 100 anos, a poesia sofreu todo tipo de ruptura. Foi fragmentada, perdeu sua aura de inatingível e até, por alguns momentos, preferiu a razão à emoção. Tornou-se urbana e adolescente para combinar com os novos tempos, viu o renascer do soneto (tido e havido como uma das maiores pragas literárias e sinônimo de ‘velha escola’) e até virou objeto – ou um jogo de palavras que abandona aquilo que chamamos de frase.
Todas essas múltiplas facetas foram reunidas em um estojo, contendo os dois volumes de 100 Anos de Poesia – Um Panorama da Poesia Brasileira no Século XX. ‘Perfil poético’ organizado por Claufe Rodrigues e Alexandra Maia e patrocinado pela BR Distribuidora.
O ar sisudo de enciclopédia que um projeto como esse poderia ter é quebrado pelas cores fortes do seu projeto gráfico. E o ar de ‘antologia Ítalo Moriconi’ que um projeto como esse também poderia ter é quebrado pelo fato de não ser os poetas ou uma lista dos ‘melhores de’ o enfoque desse trabalho. É a poesia que dá as cartas (ou os versos) aqui.
100 Anos de Poesia é representado pelo trabalho de 102 poetas, com biografias, inúmeros fac-símiles, fotos e bibliografia. Em vez de separar as produções poéticas por períodos, os organizadores preferiram pontuar o trabalho com ensaios de gente como Antonio Carlos Secchin, Heloísa Buarque de Holanda, Ivo Barroso e Ivan Junqueira. Os temas escolhidos pelos autores são diversos: poesia marginal, poesia política, a força dos recitais e surrealismo.
Com a preocupação de não descartar o valor sócio-político que também é inerente à poesia, o século XX também se faz presente nela. Ao final de cada um dos volumes, um resumo dos principais acontecimentos dos últimos 100 anos.
Como é em trabalhos desse porte que se pode enxergar o nascimento de um possível cânonine literário, é interessante ressaltar a inclusão de autores de produção recente, como Arnaldo Antunes e Salgado Maranhão. O primeiro mais ligado a um segmento que tem pretensões vanguardistas. Já o segundo, procura recriar formas poéticas clássicas.
De Pernambuco, os organizadores tiveram o cuidado de não se ater apenas aos autores mais tradicionais do Estado – Joaquim Cardozo, Ascenso Ferreira, João Cabral de Melo Neto, Mauro Mota e Manuel Bandeira. Há também Carlos Pena Filho, cuja distribuição de seu único livro se restringe aos limites pernambucanos, César Leal e Alberto da Cunha Melo – ambos ainda em processo de composição de suas obras.
PERSPECTIVAS – Organizador de 100 Anos de Poesia, Claufe Rodrigues atua como poeta desde o final da década de 70. Em 1984, criou com o jornalista Pedro Bial e Luiz Petry o trio Os Camaleões e atualmente continua a fazer recitais poéticos no grupo Ver o Verso. Em entrevista por telefone, Claufe ressaltou que procurou colocar nos livros autores com trabalhos já consolidados.
“Uma época a gente só consegue visualizar com certo distanciamento. No caso dessa antologia, Arnaldo Antunes e Salgado Maranhão são autores que, apesar de já terem realizado uma obra de relevância, ainda estão em etapa de produção do seu trabalho, e representam facetas distintas do que se produz em poesia no Brasil. Por isso, decidimos inclui-los no livro.”
Outro cuidado dos organizadores foi, na hora de levantar os nomes dos poetas, furar o eixo Rio-São Paulo e pesquisar a relevância de autores de todo o Brasil. “Pelo distanciamento do Sudeste, muitos bons autores ficam com suas obras isoladas e pouco divulgadas. É por isso que em um projeto como esse é importante que nomes importantes, como os de César Leal e Alberto da Cunha Melo, sejam lembrados”, lembrou Claufe.
Serviço:
100 Anos de Poesia – Um Panorama da Poesia Brasileira no Século XX: O Verso Edições, R$ 65, 480 páginas
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