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O consumidor e seu
código
Com onze anos de
vigência, o nosso Código de Defesa do Consumidor (CDC)
ainda não se firmou plenamente como instrumento para se
conseguir aquilo a que ele se propõe. Antes era a lei da
selva, o salve-se-quem-puder, apesar do exemplo que nos
vinha de países mais desenvolvidos desde os anos 60/70.
Mesmo com os progressos na década final do século 20, o
cidadão ainda se sente desamparado, sem proteção e sem
defesa, diante dos abusos de que é vítima por parte de
certos fabricantes e prestadores de serviços
inescrupulosos. Os órgãos públicos criados para dar
proteção ao consumidor, mais conhecidos pela sigla
Procon, são, com algumas exceções, de difícil acesso,
lentos ou inoperantes.
As agências reguladoras de serviços privatizados ou sob
concessão do Estado, nascidas no rastro do processo de
privatização, praticamente não saíram do papel e das
boas intenções. Geralmente, não regulam, não exigem o
cumprimento de contratos, não punem os faltosos. Muitas
não têm sequer equipe com capacidade operacional. As
principais, entre elas Aneel (setor de energia elétrica)
e Anatel (telecomunicações), são muito criticadas
pelas entidades de defesa do consumidor. Em Pernambuco,
foi criada uma Agência Estadual de Regulação dos
Serviços Públicos Delegados. Dois anos após, ainda
não funciona.
Há pouco tempo, realizou-se no Recife o Congresso
Brasileiro de Direito do Consumidor. Seu coordenador,
Misael Montenegro, tem uma visão otimista da questão,
garantindo que, desde a promulgação do CDC, houve um
avanço muito grande quanto à conscientização da
população. Afirma que, hoje, os consumidores integram a
fatia da população que mais protesta em defesa de seus
direitos. Já Ebe Gimenes, professora da USP, acha que a
sociedade ainda está tímida porque desconhece os seus
direitos. Ela fala da falta de uma política educativa do
consumidor, e acredita que entidades privadas e do tipo
das ONGs podem e devem exercer esse papel pedagógico,
sem paternalismo, sem esperar pelo governo. Os cidadãos
seriam orientados para reclamar sempre que se sentirem
lesados e precaver-se contra danos que possam sofrer no
futuro. Ao mesmo tempo, aprenderiam a cobrar a parte que
é só do governo, de fiscalizar, punir empresas
faltosas, exigir o cumprimento dos contratos. A
presidente da Associação de Defesa da Cidadania e do
Consumidor (Adecon), Rosana Grinberg, diz que os
consumidores estão desassistidos porque os órgãos de
defesa não sabem como orientá-los.
Entre as reclamações mais comuns, a liderança é dos
planos de saúde que, com poucas exceções, vivem de
exploração, cobrando caro e prestando poucos e maus
serviços. Segundo dados do Idec, uma ONG a serviço do
consumidor com sede em São Paulo, eles estão no topo da
lista de queixas dos consumidores (33% em 2000). Em
segundo lugar, vêm os serviços de telefonia (15%) e, em
terceiro, os bancos (11%). A resposta ao cidadão ainda
é lenta, como vimos, pois o excesso de burocracia que
assola o País contamina também os serviços de
proteção e defesa do consumidor.
Contra esse excesso de burocracia a esperança do
consumidor está no incremento de entidades privadas ou
do terceiro setor. O já referido Idec é um exemplo de
funcionamento rápido e enxuto. Tem atuação em todo o
País e é respeitado pelos consumidores, as empresas e
os órgãos públicos. Como o brasileiro está, embora
lentamente, aprendendo a libertar-se do paternalismo e a
não esperar tudo do governo, pode-se esperar que a
segunda década de vigência do CDC, com uma atuação
mais decidida e generalizada, na defesa do consumidor, de
entidades privadas, ONGs e outras do terceiro setor,
será mais produtiva que os últimos onze anos.
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Jornal do Commercio
Recife - 26.11.2001
Segunda-Feira
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