A Polícia Militar de Pernambuco tem hoje sete entidades associativas, todas criadas com o argumento de defender os interesses de praças e oficiais. Até anos atrás, essa seria uma situação difícil de imaginar e, na avaliação de muitos policiais, ela terminou sendo determinante para gerar a crise de hierarquia e disciplina que hoje atinge a corporação. O próprio coronel Antônio Menezes, o primeiro a reconhecer, em 97, o direito do policial de participar de associações, defende que houve um “desvirtuamento” dos objetivos das entidades que, segundo ele, “nunca poderiam ter enveredado por caminhos que levassem à quebra de hierarquia”.
Apesar da constatação, Menezes diz não estar arrependido da autorização dada. “Não retiro uma vírgula do que eu fiz. Eu sou um legalista. Na minha visão, o direito à associação estava garantido na Constituição e eu tinha obrigação de reconhecê-lo. O problema é que as pessoas se aproveitaram para fazer uso político dessas entidades, com interesse apenas de se autopromoverem”, avalia.
Justamente por causa dessa decisão, nos bastidores da Polícia Militar, a gestão do coronel Menezes é considerada um divisor de águas. Depois dela, a PM nunca mais seria a mesma. “O que ele fez foi abrir as portas da polícia para a sindicalização. Ele quis ser liberal demais e terminou insuflando os policiais a se rebelarem, de forma organizada e ilegal, contra o comando da corporação”, avalia um oficial do alto comando da PM.
Coincidência ou não, nos três últimos anos, houve um aumento do número de flagrantes por conta de insubordinação e desacato dentro da PM. “Antes, nós registrávamos um flagrante dessa natureza a cada dois ou três meses. Hoje, tem semana em que são feitos até três flagrantes por insubordinação”, observa o corregedor da Polícia Militar, o tenente-coronel Alexandre Brito.
Para os líderes dessas entidades, no entanto, a atividade associativa não é incompatível com a vida militar e apenas expôs para a sociedade as situações mal-resolvidas da corporação. “Vivia-se subjugado pela rigidez disciplinar, sem que os problemas fossem tratados como deveriam. O que as associações fizeram foi dar voz a essas insatisfações que existiam na tropa”, observa o capitão Alberto Feitosa, presidente da Associação dos Oficiais da Polícia Militar.
Feitosa compara a situação da PM com a estrutura do Exército para mostrar que as associções não contribuem com a quebra de hierarquia. “Eles também possuem entidades associativas iguais às nossas. Mas a diferença é que no Exército as pendências da tropa são resolvidas. Se foram quebrados limites na PM é porque não tivemos respostas satisfatórias do Governo e do comando da corporação em relação aos nossos pleitos”, avalia o capitão.