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Sexo@Cidade
Flávia de Gusmão

Um ‘sexual trainer’ evitaria um monte de constrangimentos

1 A hora e a vez do personal tutor

O repórter João Luiz Vieira (ex-Caderno C e atual revista Época) assina ótima matéria sobre a nova mania entre as emergentes: o ‘personal tutor’, alguém que tem um bom nível de conhecimento genérico e é contratado para ‘enfiar’ um pouco desse acervo nas mentes de seus pupilos. Utilíssimo, aliás. Não há nada mais embaraçoso do que uma gafe cometida pela combinação explosiva entre falta de informação, excesso de eloqüência e escassez de bom senso. Um ‘personal tutor’ funcionaria como uma espécie de treinador para conversas de salão. É provável que seus alunos jamais consigam conduzir um debate aprofundado sobre qualquer coisa, mas, e daí? Honestamente falando, o que permanece registrado em conversas transcorridas em vernissagens, lançamentos de livros, pré-estréias, jam sessions, degustações e ‘bares-cabeças’ são as incisões precisas, mas reticentes. Ou seja: diga algo correto, mas jamais se estenda tempo suficiente no assunto para que todos percebam que o seu conhecimento é mais raso que a barragem de Sobradinho. As pessoas não precisam disso e você, certamente, precisa menos ainda. Exemplo 1: você diz “Pois é, ninguém jamais definiu melhor a idéia de alma do que Platão”. Diga isso com voz firme e, se for mulher, por favor, evite a voz de falsete. Não há conceito de inteligência que resista a uma voz de taquara rachada. Em resumo: mais Mercedes Sosa, menos Gal Costa, please. Se o cara realmente sacar de Platão (são pouquíssimos na cidade, seria o cúmulo do azar, mas acontece, esteja preparada), resista à tentação de prolongar o assunto. Exemplo 2: ele diz “Ah! Você realmente admira o conceito da alma tripartida?”. Lascou Odete. Tome um gole de champanhe, ganhe tempo, finja que viu alguém do outro lado do salão, acene com uma cara superfeliz de quem acabou de rever o irmão gêmeo do qual você está separada desde o nascimento. Vire-se para o chato e diga: “Só um instantinho, volto já, já, para continuarmos o papo”. E nunca mais. No entanto, tenha sempre na manga um estoque de assuntos que você domina razoavelmente, seja através de decoreba de frases feitas, seja através de estudo. Conheço um cara que usa Alexandre, O Grande para alcançar seus objetivos. E funciona. O tira-teima para descobrir se ele está interessado em alguma garota no recinto é acompanhar a conversa. Se Alexandre, O Grande surgir, é tiro e queda. Esse é o seu assunto-amuleto e ele o domina como ninguém. À medida em que ele discorre com paixão sobre o gênio militar, as conquistas, a simbologia de tudo o que se possa imaginar, vi garotas, literalmente, se derreterem para ele. Pensem nisso. Algumas regras, no entanto, devem ser observadas. Regra número um: incorreções gramaticais são inadmissíveis e aí o ‘personal tutor’ pode ser de grande ajuda ao informar que a pronúncia correta é estupro e não ‘estrupo’, é rubrica e não rúbrica (embora eu não consiga lembrar de nenhum conversa de salão na qual tenha utilizado a palavra rubrica, enfim...). Também devem ser apropriados todos os termos utilizados. Evite palavras complicadas se não tiver certeza do seu significado. Uma conhecida minha ia muito bem na parada utilizando-se das técnicas acima fornecidas. Até que a conversa enveredou para planos profissionais. Ela disse: “O que eu queria mesmo era ter um negócio meu”. No que o interlocutor devolveu: “Ah! Você queria ser autônoma?”. E foi aqui que ela se perdeu: “Autônoma eu não digo, mas ser independente, sim”.

2 Pra não dizer que não falei de sexo

Embora eu acredite que a modalidade de ‘sexual tutor’ nunca será bem aceita pela sociedade, não há como negar que ela também seria muito útil. As primeiras vezes do homem e da mulher (nada a ver com a primeira vez no sentido estrito) têm menos a ver com prazer e mais a ver com o desejo de impressionar. Não há quem não queira ser considerado ‘bom de cama’ logo de saída. E, como não podemos nos afastar de nós mesmos para apreciar nossa performance, muitas vezes pensamos estar arrasando quando, na verdade, estamos sendo apenas ridículos. ’Um ‘sexual tutor’ teria a função de corrigir tais erros. “Olha, esse gemido no final soou meio falso. Não tem como substituí-lo?”. Sempre dá-se um jeito. Evitar algumas posições esteticamente desfavoráveis também é um bom toque, assim como: encontrar a iluminação ideal, praticar posições não-ortodoxas que sempre causam um certo constrangimento quando feitas no improviso, evitar manobras que pensamos ser indiscutivelmente sexies, mas que desgradam o parceiro, tais como: inundar a orelha com saliva, enfiar o dedo no umbigo, barulho demais, barulho de menos...Honestidade e experiência seriam os pré-requisitos para o desempenho da função.

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Jornal do Commercio
Recife - 26.11.2001
Segunda-feira