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ARTIGO

A arte da conversa

POR GUSTAVO KRAUSE

“O homem é o único animal que ri”, observou o filósofo francês Henri Bargson na sua magnífica obra “O riso”. Alguém poderia acrescentar: “e que conversa”, o que tornaria o cômico, ao lado do colóquio, fenômenos essencialmente humanos.

De fato, a conversa pode até ser um fenômeno essencialmente humano; agora, a boa conversa é um privilégio de poucos, porque é tão agradável, tão instrutiva, tão divertida, que chega a ser uma arte.

E para ser uma arte, a conversa, o bate-papo ou dois dedos de prosa são um espaço onde não podem prosperar certos personagens.

“O piadista”, por exemplo, é aquele cara que chama a atenção de todo mundo com a pergunta besta “vocês conhecem a última do português?”; sai com uma piada pouco original, por conta, recebe sorrisos educados, mas já cortou o barato da conversa.

Tem, também, “O devorador de bibliotecas” ou “Papai sabe tudo”. Este é o dono da palavra, da verdade e das sentenças irrecorríveis. Jamais esquece de passar na cara dos pobres mortais que “quando estudei em Harvard” ou “Nietzsche já dizia” e, a cada tese, raciocínio, professoralmente exposto, sapeca um “concorda?”

É preciso tomar cuidado com “Os viajados” ou “Desbravadores de Miami” que contam, em detalhes, as delícias da excursão empacotada que empreendeu com a patroa, os pimpolhos e “aquela jóia de criatura que vem a ser a mãe da minha mulher”.

Muito freqüentes e que perturbam paca o prazer do bom papo são “As domésticas verborrágicas” ou “Teóricas da educação Infantil” que não perdem oportunidade para, freneticamente, falar sobre o papel das babás na formação psicossocial das crianças e acrescentar novos saberes ao legado de Piaget e Montessori.

De lascar é “O amigo sincero” ou “Carrasco das ilusões”. Geralmente, interrompe um dos interlocutores com o seguinte preâmbulo: “Sou seu amigo, mas sou muito sincero”, aí enfatiza a discordância lançando mão de uma verdade contundente daquelas que a gente sabe, mas esconde porque maltrata demais.

Pernicioso aos prazeres da arte de conversar é “O cabeça de lagartixa” ou “Sedutor pela concordância” que, de olhar atento para o interlocutor e meneio afirmativo com a cabeça, repete, com a voz melodiosa: “Isto mesmo”; “Exatamente”.

“O fofoqueiro” ou “Menestrel da maledicência”, dependendo de certos limites, pode até adicionar um certo tempero às conversas, em geral, observado por um personagem tímido, calado que ninguém sabe se é “O estúpido silencioso” ou “Vampiro das Idéias”. Ambos nada somam ao sadio exercício da boa conversa.

A rigor, não há regra, nem manual para o sujeito se tornar um bom conversador. Há, todavia, para o sujeito não se tornar um personagem indesejável, uma qualidade a ser observada, referida por Oscar Wilde (artigo publicado em 1882, sob o título “Chá das cinco com Aristóteles”): “Ter tato é um interessante sentido de simetria das coisas, a maior e melhor condição moral para se entabular uma conversa”.

Na verdade, a falta de tato pode ocasionar episódios tragicômicos como o que presenciei num bate-papo de final de expediente na época em que iniciei minha carreira como funcionário fazendário.

Um colega falastrão, opiniático, metido a engraçado e, evidentemente, sem o menor tato, escutava uma avaliação de meia dúzia de outros colegas sobre as possibilidades de candidatos à deputaçao estadual. “Fulano de tal”, lembrava um e, em seguida, outro dizia: está eleito ou não está eleito (e explicava as razões). Um dos presentes disse e “Fulana de tal”, referindo-se a uma das candidatas do sexo feminino; o cidadão levantou-se da cadeira (e eu fui saindo de fininho porque acabara de ser ligado o grande ventilador do espalha-bosta; sabia que o irmão da indigitada estava presente; não tinha como evitar a consumação do constrangimento) e disse em alto e bom som: “Esta está eleita. O seu cabo eleitoral e a b...” Até hoje, nunca soube dos desdobramentos.

P.S. A bibilioteca do Sesc/Piedade vai receber o nome de José Mindlin. Nada mais justo, nada mais adequado. Parabéns a Josias Albuquerque.

Gustavo Krause, ex-ministro da Fazenda, é consultor de empresas


Jornal do Commercio
Recife - 29.03.2001
Quinta-feira