Artista inaugura exposição no Aria, na qual faz um resumo de meia década de produção. O traço que une os trabalhos é a investigação da relação entre arte e arquitetura
POR FLÁVIA DE GUSMÃO
Cláudio Tozzi, artista plástico paulista, não monta uma exposição no Recife há 20 anos. Chegou a vez, portanto, de conferir o que ele vem produzindo nos últimos cinco anos anos. A partir de hoje, no Espaço Aria, Tozzi expõe 22 peças (quadros e objetos) que ele considera as mais significativas desse período de meia década. Estarão lá representantes das séries Escadas, Arquiteturas Imaginárias, Recortes e Fragmentação.
Formado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, Tozzi acaba de desmontar no Museu Brasileiro de Escultura, em São Paulo, a exposição Construção da Imagem e Sua Relação com o Espaço – O Fazer do Artista Plástico e do Arquiteto. O título é, exatamente, aquilo que parece: uma tese de pós-graduação pela mesma universidade que o graduou, a USP, e a mostra foi a ilustração do que estava escrito em copiosas laudas.
Isso tudo é para dizer que quem nunca viu o que Cláudio Tozzi faz vai travar conhecimento, essencialmente, com um arquiteto com alma de artista, ou vice-versa, ou nem isso, uma vez que as duas faces estão tão integradas nele quanto ele gostaria que, de resto, estivesse sempre integrada a relação entre arte e arquitetura.
Ele defende a participação do artista na concepção dos espaços arquitetônicos, não apenas assinando uma obra e colocando-a lá, mas, efetivamente, na sua elaboração. E ele mostra como: é dele o painel na Estação da Sé do metrô paulista (1979) e várias outras obras vinculadas à arquitetura.
A preocupação de Tozzi com o espaço a ser ocupado pela obra de arte exerceu influência definitiva em seu trabalho, como ele mesmo declarou à Folha de S. Paulo: “Realizar essas obras mudou meu trabalho; antes minha pintura era quase chapada, agora me preocupo também com a distância”, disse.
MODO DE FAZER – Diante da obra de Cláudio Tozzi, desaparece qualquer reminiscência de natureza ou metáforas que possam levar a esse tema. Na verdade, é um trabalho tão seco e inteiriço que qualquer associação, com qualquer que seja o tema, é mera transferência pessoal. Seu trabalho é urbano, construtivo, humano sem que isso signifique nenhum legado biológico. É formado, principalmente, por formas geométricas fechadas em si. É como um mergulho – só agora possível com os programas de computador em 3D – numa grande maquete virtual.
Nessa mostra, o visitante poderá ver claramente que existe uma ligação indissolúvel entre cada uma das fases atravessadas por Tozzi. Sua grande preocupação parece ser com o tratamento gráfico. Tozzi recorre a cores propositalmente vivas, berrantes mesmo,embora algumas exceções sempre sejam feitas. Se for para citar uma das principais características de seu trabalho, essa seria o pontilhismo. Melhor explicando:a superfície pontilhada do rolo de borracha utilizado por Tozzi substitui (mas não aposenta) o pincel. É isso que dá o efeito reticulado que se observa na maioria de suas obras.
Não há como falar no trabalho de Tozzi sem fazer menção à pop art, cuja característica mais marcante foi trazer elementos do cotidiano para o então refinado e distanciado universo da arte. A pop arte restaura a figura, antes completamente desprezada pelos abstratos, mas sem vinculá-la a nenhum tema. Ela vale pelo que ela é.
Serviço
Exposição de Cláudio Tozzi – Espaço Aria. (Av. Canal de Setúbal, 766, Piedade, fone: 3341.1014). Abertura hoje, às 20h. Em cartaz até o dia 25/04