Especialistas condenam o uso do dinheiro como um instrumento de barganha diária, mas defendem a mesada sem vinculá-la a prêmios
Para o psiquiatra Alfredo Castro Neto, as mentiras, as chantagens emocionais e as distorções de fatos são comportamentos comuns, especialmente entre pais divorciados que, para manterem os filhos como aliados ou até mesmo como súditos, corrompem a saúde emocional da criança. “As crianças que chegam ao meu consultório com fobias, ansiedades e desvios de conduta vivem muitas vezes sob o fogo cruzado de pais separados que falam mal um do outro para a criança, tornando sua vida um desespero, sem referências morais e sem vivências afetivas. Tenho o desenho de um menino de 8 anos que mostra bem essa situação. Ele estava num barco e, à sua volta, pegava fogo em tudo. Ele vivia no meio de uma guerra dos pais”, conta.
Há ainda as mães que se apresentam aos filhos como vítimas abandonadas impiedosamente pelos maridos só para manipular as crianças na sua vingança pessoal contra o ex-cônjuge. “Essas mães são daquele tipo que se dizem amicíssimas dos filhos, que não têm segredos para eles e lhes contam tudo de sua vida. E mentem e exageram, para fazer dos filhos aliados e manipulá-los. Isso é honesto? Não, é uma conduta desonesta que corrompe a integridade ética da família”, afirma o psiquiatra.
SINAIS – Castro Neto diz que uma dessas mães que "contam tudo" levou a filha de 9 anos a inventar, com desenhos, "Os dez mandamentos da desgraçada". Segundo ele, é uma versão tragicômica para os episódios que a mãe lhe confidenciava e que a levaram a distúrbios fóbicos e de ansiedade.
“Essa mãe só contava desgraças para a filha. Era uma coitada, fora abandonada pelo marido na rua da amargura, estava doente, podia morrer. A menina, no seu desespero, criou essa espécie de manual da mulher desgraçada, que era assim: a mulher cai no buraco, a mulher cai na lama, a mulher bate com a cabeça no espelho, a mulher vai ao enterro da mãe. Essa amizade entre mãe e filha é sincera? Não, isto é manipulação feita pela mãe”, diz Castro Neto.
Isto significa que a mãe deve esconder sentimentos de tristeza, decepção ou contrariedade aos filhos? De jeito algum: segundo a psicanalista Bárbara Carvalho, isto seria o outro lado de uma moeda falsa, já que a vida cor-de-rosa da mãe que jamais sofre é tão falsa quanto a da desgraçada.
O caminho da sinceridade é difícil, mas foi o escolhido pela estilista Cristina Lopes para lidar com os três filhos: Rodrigo, de 21 anos e André, de 19, do primeiro casamento; e Maria Luiza, de 12, do segundo. “Como fingir que está tudo bem quando o casamento acaba e você enfrenta a separação do pai dos seus filhos ? Tive que dizer que estava mesmo triste, mas que ia passar. Eles também ficaram tristes. E passou, justamente porque converso sinceramente com eles e tentamos nos entender. Hoje, estou bem de novo, empenhada em fazê-los felizes”.
BARGANHA – Outro tipo de corrupção doméstica são as barganhas do tipo fique bem comportado que você ganhará um doce. A modelo Vera Gurgel, porém, diz que se recusa a fazer esse tipo de negociação com o filho Danilo, 5, por não considerá-la ética nem construtiva. “Quando peço para o Danilo arrumar o quarto dele, nunca ofereço nada em troca. Tento explicar que o quarto é dele e que deve ficar bonito como o meu e o resto da casa. Outro dia, cheguei e ele me disse, rindo, que não tinha arrumado nada. Eu já sabia que era brincadeira, mas fiz uma cara de brava. Quando vi, tinha até forrado a cama, o que não peço para ele fazer. Mas quando bate o pé e diz que não vai arrumar nada, eu o obrigo”, diz.
A corrupção dentro de casa começa nas negociações domésticas mais simples. Desde o dever de casa condicionado a um saco de balas até situações mais graves, como o de pais que dão dinheiro aos filhos para que eles obedeçam, muitas vezes como cúmplices de pequenas traições. “A mãe que dá ao filho um presente para que ele não conte ao pai que ela saiu para tomar chope com as amigas está transmitindo-lhe lições de fraqueza de caráter”, diz o psiquiatra Alfredo Castro Neto.