LG_jc.gif (3670 bytes)

SERVIÇO 24 HORAS
Para quem vive sem tempo

Com a pressa imposta pela vida moderna, aumenta o número de pessoas adeptas dos serviços que funcionam fora do horário comercial

por PRISCILLA DANTAS

Entre os muitos efeitos colaterais causados pela vida moderna, um se destaca por atingir a maioria da população: a falta de tempo. O corre-corre causado pelo trabalho, bem como o aumento do interesse pelas atividades ligadas ao desenvolvimento profissonal, tem levado muita gente a abdicar de algumas horas de sono para poder dar conta dos afazeres domésticos e pessoais.

No entanto, na luta contra o tic-tac do relógio, as pessoas acabam encontrando um grande aliado: os serviços 24 horas. Se não fosse essa nova proposta do mercado, que tem crescido em quase todos os segmentos, os atarefados de plantão estariam numa situação complicada.

Um bom exemplo disso pode ser visto no dia-a-dia da empresária Márcia Bandeira. Por ter que trabalhar os dois expedientes, de domingo a domingo, Márcia se considera a consumidora número um de tudo que funciona no horário noturno e não se martiriza pelo fato de ter que dormir pouco. "Faço compras, coloco gasolina no carro, vou ao médico, arrumo a casa, vou à farmácia renovar meu estoque de remédios, tudo à noite. Acho que minha vida seria um grande tormento se não fossem os locais que ficam abertos até tarde", conta Márcia que está tendo aula particular de inglês num horário nada convencional, das 23 às 24hs.

Já o casal Wagner e Maria do Socorro Maia, apesar de ter um horário um pouco mais flexível que o de Márcia (só ele trabalha os dois expedientes), diz que o melhor momento para eles irem ao supermercado é depois da meia-noite. "Como costumamos fazer as compras juntos, minha esposa tem que me esperar. Lógico que não vou sair para uma feira assim que chego do trabalho. Seria muito cansativo. Preferimos então, jantar, assistir à televisão e, após tudo isso, seguir com calma para algum supermercado que esteja funcionando", diz Wagner, enfatizando a questão de que a noite é ideal para se fazer compras por causa do clima e da pouca quantidade de gente nos caixas.

Quando o assunto é cuidar de si, numa hora fora do comum, o advogado Marcelo Marques é um bom representante da situação. Ele, que dedica o seu dia a uma infinidade de processos em seu escritório, diz que é capaz de muitos sacrifícios para manter a boa forma. Aluno da Academia Vereda Trainner (24 horas), localizada no bairro Espinheiro, Marcelo malha há 8 meses, geralmente, da meia-noite à uma da manhã. "Esse é o único horário que resta no meu dia. Não me sinto cansado, até porque durmo o número de horas que me satisfaz."

Para o proprietário da Vereda Trainner, o fisiculturista Macelo Vereda, montar academias 24 horas é uma prática muito comum nos Estados Unidos. Segundo ele, diariamente, entre a meia-noite e as duas da madrugada, cerca de 50 pessoas freqüentam a sua academia. "A maioria dos alunos é de pessoas superatarefadas como analistas de sistemas, profissionais liberais, médicos, advogados, enfim, pessoas que vivem trabalhando", observa Vereda, afirmando que não há mal nenhum em fazer exercícios durante a noite. "Não muda nada. O corpo se adapta às mudanças", completa.

Contudo, os serviços 24 horas não funcionam apenas para colaborar com a vida dos que trabalham demais. Há pessoas que mesmo encontrando ‘brechas’ na sua agenda, usufruem desse mercado por vários motivos, como é o caso do universitário Norberto Leal. Por sofrer de insônia, Norberto admite ser um freqüentador assíduo de lojas de conveniência. "Para mim isso é uma terapia. Moro próximo a duas delas. Como a leitura me dá sono, geralmente, desço de madrugada para comprar revistas e lanchar. Já conheço todos os funcionários. Semana passada mesmo amanheci o dia batendo papo com o pessoal", diz o estudante que também já se consultou por um tempo com um dentista que atendia a partir das dez da noite.

É PRECISO DORMIR BEM - Embora o corre-corre da vida moderna esteja amparado pelos benefícios dos serviços 24 horas, o psiquiatra Everton Botelho avisa que a falta de algumas horas de descanso pode ser prejudicial à saúde. Segundo o especialista, mesmo que a necessidade de sono varie de acordo com o organismo de cada um, as pessoas que dormem pouco estão mais propensas a apresentar quadros patológicos como a depressão, a falta de concentração, a queda no rendimento cognitivo e intelectual, a irritabilidade.

De acordo com Botelho, se não se pode dormir a quantidade de horas essencial ao corpo, o melhor que a pessoa tem a fazer é garantir um sono tranqüilo. Para ele, é imprescindível que quem durma pouco mantenha, ao menos, uma regularidade ao deitar, ou seja, escolha sempre o mesmo horário. Fora isso, ele afirma que o ambiente de dormir deve estar sempre higienizado, arrumado e sob uma temperatura agradável. "As pessoas que trabalham demais e chegam tarde em casa devem evitar deitar de barriga muito cheia ou muito vazia, leitura, bebidas alcoólicas, cigarro, entre outros hábitos que prejudicam o sono saudável", avisa.

___________________________________


Jornal do Commercio
Recife - 25.03.2001
Domingo