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ILHA DE MANSANGANO Um dos mais belos trechos do São Francisco
Com aura de local perdido no tempo, a ilha, a 15 quilômetros de Petrolina, é um verdadeiro santuário ecológico por BRAULIO BRILHANTE Imagine uma ilha repleta de praias desertas distribuídas em cinco quilômetros de um dos mais belos e acidentados trechos do rio São Francisco. Um lugar tranqüilo, bem menor que a Ilha de Itamaracá, entrecortado de matas, elevações, lagos e enormes mangueiras, cujas sombras acolhem generosamente os moradores na sesta do almoço ritual, aliás, herdado dos antepassados caboclos. Essa é a encantadora Ilha de Massangano, localizada a apenas 15 quilômetros de um dos mais importantes pólos econômicos da região, a cidade de Petrolina. Com todos esses atributos, é de se esperar que esse santuário ecológico ofereça um vasto leque de atrações naturais, desde caminhadas por trilhas só conhecidas pelos ilhéus a mergulhos nas águas do velho Chico. Balsas, lanchas e barcaças particulares partem diariamente do ancoradouro de Petrolina, em direção ao vilarejo da Ilha de Massangano, principal núcleo de concentração urbana do lugar. Uma vez na ilha, o aventureiro só conta com duas alternativas para percorrer os vários recantos espalhados em cinco quilômetros quadrados de área: enfrentar as longas distâncias a pé ou recorrer aos barqueiros que fazem a travessia. Pagando um pouco mais, é possível conhecer pelo rio as belas praias a maioria ainda selvagem que compõem todo o perímetro da ilha. Além das paisagens, ali é possível encontrar algumas das mais ricas tradições culturais da região. A maioria delas tem raízes na religiosidade popular, como as festas de São Gonçalo e de Reis, quando os moradores da ilha aproveitam para dançar o samba de véio, uma tradição de mais de um século que ainda hoje é repassada pelos mais velhos às gerações mais novas. Com todas essas particularidades, é impossível não se render aos encantos da fascinante Ilha de Massangano. Além de usufruir de uma paisagem ímpar, o visitante tem a sensação de ter voltado no tempo, na época dos negros e índios quilombolas. Afinal de contas, esse pequeno pedaço de terra encravado no meio do São Francisco não constitui apenas um importante ecossistema para o equilíbrio ambiental da região. É também um indiscutível registro da história oral remanescente das populações ribeirinhas, que povoaram as margens do rio, no final do século passado. TRANQÜILIDADE O vilarejo que abriga a maioria dos moradores é o portão de entrada da ilha. Localizado no mais belo trecho do rio, o povoado encanta à primeira vista. Logo no desembarque, no ancoradouro do vilarejo, o visitante tem uma visão única da geografia do lugar, com uma densa mata e algumas pequenas elevações de um lado e pequenas praias do outro. O povoado da Ilha de Massangano é formado pelas 140 famílias.. Os moradores são gente simples e humilde geralmente parentes próximos dos escravos. Sabe-se que os primeiros registros oficiais da população datam de 1830, provável início da ocupação do lugar. O nome da ilha, contam seus moradores, foi dado pelo antigo dono, um rico fazendeiro de nome João Massangano. Com o tempo, a ilha teria sido ocupada por índios e negros escravos fugitivos e alforriados, vindos do sertão de Pernambuco e da Bahia. Hoje, os ilhéus vivem da pesca apenas no primeiro semestre do ano, no outro, vivem da agricultura, plantando milho, feijão e mandioca. O que sobra é comercializado nas feiras livres de Petrolina, onde dizem faturar até R$ 100 por semana, dependendo da colheita. O vilarejo se espalha por uma única rua de chão batido, onde estão dispostos grupos de casinhas de taipa e outras de alvenaria tipo porta e janela. Afastado dos grandes centros, o lugar é praticamente desconhecido dos turistas. Na ilha não existe qualquer serviço voltado para o turismo. O transporte no local é feito a pé, de bicicleta ou no lombo de um jegue. Mas, se a proposta é entrar no clima pacato e singelo da ilha, sem qualquer luxo, vale a pena passar ao menos uma noite no vilarejo. A única alternativa é alojar-se na casa dos próprios ilhéus e curtir toda a hospitalidade que o lugar oferece. Essa particularidade tem uma explicação: durante muitos anos, a ilha viveu isolada do resto do mundo. Não havia escola, igreja ou energia elétrica. Atualmente, além de escola e eletricidade, foi construída uma capelinha em homenagem a Santo Antônio, padroeiro do vilarejo. Os moradores contam com estrutura para a irrigação das lavouras e novos equipamentos para o fabrico da farinha. A ilha tem telefone público e praticamente todos os nativos possuem aparelhos de rádio ou televisão. Mesmo assim, parece que tudo na ilha estacionou no tempo. A tranqüilidade do local só é quebrada durante os dias de festa. A principal delas é a de Reis, que é comemorada na primeira semana de janeiro, quando o vilarejo recebe a visita de moradores de outros povoados vizinhos. A partir do vilarejo da Ilha de Massangano, pode-se recorrer aos serviços dos barqueiros para um passeio pelo rio, pagando em média R$ 10 a hora, ou então aos serviços de um guia para uma caminhada pelas inúmeras trilhas existentes no local, a um preço médio de R$ 5, dependendo da distância. Outra boa dica é jogar conversa fora com os próprios ilhéus e aprender com eles o jeito simples de levar a vida. Tudo isso, é claro, acompanhado de uma cervejinha gelada e um delicioso peixe frito, pescado na hora. O resto é deixar o tempo passar. |
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