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ILHA DE MASSANGANO VI
Samba de sangue ancestral

O samba do véio, dança de origem negra e índia, se mantém como uma das mais fortes tradições da Ilha de Massangano, em Petrolina

Para chegar até o vilarejo da Ilha de Massangano, em Petrolina, a 776 quilômetros do Recife, é preciso enfrentar um trecho de dois quilômetros de travessia de barco pelo rio. Uma experiência surreal, principalmente se é feita ao cair da tarde, quando o céu divide-se entre os tons vermelho e dourado que marcam o fim do dia e o azul profundo que anuncia a chegada da noite. Nesse cenário deslumbrante, bem no meio do São Francisco, sobrevive uma das mais antigas e originais manifestações da cultura ribeirinha. O samba de véio, expressão usada pelos ilhéus, cujo parentesco vem de muito longe, provavelmente da época dos negros e índios quilombolas, é uma tradição eminentemente oral. Não existe qualquer registro escrito sobre ela. Tudo que se sabe está guardado na memória dos mais velhos. Mesmo assim, nem eles sabem ao certo como a história começou.

O agricultor José da Silva, 90 anos, mais conhecido na ilha como Zé de Helena, conhece o samba de véio desde os 10, quando começou a freqüentar as rodas de samba na companhia de seu pai, um velho puxador de samba, com quem aprendeu a dançar o batuque e cantar as loas, assim como o seu pai, no passado, aprendeu com os seus avós.

Desde então, nunca mais parou de cantar as cantigas que aprendeu. "Mas, com o tempo, eu fui criando as minhas próprias cantigas", lembra. Hoje, seu José não pode mais dançar. Falta-lhe uma das pernas, que perdeu ainda moço num acidente. Nascido e criado no batuque, ele diz não saber muito sobre as origens do samba de véio. "O que eu sei é que essa tradição vem dos antigos e é por isso que tem esse nome", explica.

Agricultor ainda na lida, seu João de Maria, 92, é o morador mais antigo do vilarejo. Apesar da idade, ele garante que ainda tem muito fôlego para cair no samba. Seu João chegou à ilha em 1920, vindo do município de Xoxó, na Bahia, onde nasceu. Ali, conheceu Maria Cristina dos Santos, 70, a sua segunda esposa, com quem teve 15 filhos e vive até hoje. Muito antes disso, porém, já brincava nas rodas de samba, onde aprendeu a dançar e cantar com seus pais. "Naquela época a diversão do povo era cair no batuque até o dia amanhecer", recorda. Sobre a origem do samba, seu João tem uma vaga lembrança. "Rapaz, deve ter uma parte de índio, sim, porque meu avô mesmo era índio e gostava de batucar", explica. "Nesse tempo, a brincadeira da gente era jogar capoeira na Ilha de Cabrobó e saltar de fogueira no São João, só depois conheci o samba de véio".

Desde então, pouca coisa mudou. O ritmo da música e o jeito de dançar e cantar o samba, segundo os mais antigos da ilha, é o mesmo do que se fazia no início do século. "A diferença é que, antigamente, se tocava com pandeiro e tamborete e hoje tem o instrumento de corda", lembra o pescador Adelino Manoel de Souza, 66, o ‘doutô Calumbi’, hoje puxador de samba da ilha e aquele que compõe a maioria das letras das músicas. A manifestação do samba de véio é originalmente comemorada durante a festa de Reis, no período de 1 a 6 de janeiro, época mais apropriada para as apresentações do grupo.

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Jornal do Commercio
Recife - 29.03.2001
Quinta-feira