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O presidente e o embaixador por CELSO RODRIGUES PIEDADE O pernambucano tem motivos para se orgulhar desta terra. Orgulhar-se da sua bela e guerreira história. Da sua cultura. Dos seus valores. Dos homens públicos, em sua maioria. É um culto que necessário se faz transmitir às novas e futuras gerações. É possível que muitos moços desconheçam o que fomos e continuamos representando para este País, apesar de todos os atropelos que vêm de fora, isto é, do Sul do País. Já vi, por exemplo, o sr. José Serra afirmar, na televisão, que o Nordeste é uma região inviável. E repetiu, então, o mesmo e surrado conceito do então ministro Delfim Neto. Assim é que nos olha o paulista com o poder nas mãos. A esta altura, não. Candidato oficial à presidência da República, o sr. José Serra é ameno, solidário com as nossas dores, e até literalmente risonho... Até em Passira. Deve ter ouvido o belo Hino de Pernambuco, em ritmo de frevo, cantado por Alceu Valença, e não resistiu. Dançou, dizem as más línguas. Estamos às vésperas do Carvanal, e no começo de um ano de malandragem, de demagogia, de impostura. Afinal, vamos escolher o novo presidente da República, e muitos dirão aos eleitores incautos que não leiam nunca mais o que eles disseram e escreveram sobre o Nordeste. Repetirão o caráter de Fernando Cardoso. O estudante de hoje sabe que Pernambuco fez a Revolução Pernambucana de 1817, tida por Oliveira Lima como a mais importante do Brasil Colonial? E o Guararapes? E à Academia Brasileira de Letras, a começar por um dos seus fundadores (Joaquim Nabuco), chegaram 21 pernambucanos? Um deles, Celso Vieira, nasceu em Garanhuns. A propósito do caruaruense Álvaro Lins, o poeta Carlos Drummond de Andrade deu-lhe a coroa de imperador da crítica literária brasileira. E leio, com justo orgulho, o destaque que Álvaro Lins mereceu do escritor Claudio Bojunga, no JK o artista do impossível, livro considerado como um fascinante ensaio político sobre a mordernização do Brasil no século 20. Reafirma-se, em quatro páginas, com foto de Juscelino ao lado de Álvaro, na Academia Brasileira de Letras, o caráter do admirável intelectual, quando embaixador do Brasil em Lisboa. Escreveu Bojunga que no início as coisas passaram bem entre Álvaro Lins e os portugueses: o crítico literário conhecia Portugal, havia ministrado cursos em universidades, era intelectualmente respeitado. Mas os amigos de Álvaro em Portugal eram os opositores (os tolerados, os outros estavam na cadeia ou no exílio, não os aliados do salazarismo. Havia uma agravante: embora não fosse diplomata de carreira, Álvaro dedicava-se com afinco às tarefas da embaixada, delegando pouco a secretários e auxiliares. Com o tempo foi percebendo a estratégia portuguesa e as vantagens que Salazar auferia com servil subordinação brasileira a seus interesses ultramarinos. Álvaro considerava Salazar um homem medieval, profundamente autoritário, dotado de uma cruel e onipresente polícia política, exercendo na África um colonialismo abjeto e excludente. Sentia que o Brasil nada lucrava com aquela sabujice e os que os interesses portugueses nas colônias colidiam parcialmente com os do Brasil. O relacionamento diplomático entre o embaixador Álvaro Lins e o governo Salazar complicou-se quando o general Humberto Delgado, candidato à presidência da República pela Oposição foi derrotado, e Delgado, ameaçado de prisão, exilou-se na embaixada brasileira. Recebeu o apoio e a solidariedade de Álvaro. Mas seguiu-se extenuante braço de força entre Álvaro Lins e as autoridades portuguesas. Álvaro não cedeu. Para ele, a embaixada era território brasileiro e qualquer tentativa de invasão equivaleria a uma declaração de guerra. Os portugueses não aceitaram o asilo, argumentando que o Brasil não tinha tratado específico com Portugal. Álvaro estudou o assunto e concluiu que mesmo sem tratado, há jurisprudência: Plínio Salgado, após o golpe frustrado de 1937, foi recebido por Portugal. Cresceram as pressões contra Álvaro no Brasil e Lisboa. Os jornais passaram a atacar Álvaro no Rio. Ser pró ou contra Álvaro passou a ser pró ou contra Salazar. Não era o que o governo brasileiro esperava do embaixador: Álvaro tornava-se líder da oposição de um regime aliado e acirrava o anti-salazarismo no Rio. O embaixador sentiu que estava sendo abandonado por Kubitschek. Os aliados de Álvaro, no Rio, todos de esquerda, confirmaram que o embaixador estava isolado: ele recebeu moção de apoio da UNE, encorajando-o a não abrir mão do asilo concedido, e de jornalistas, como Joel Silveira. Alvaro acabou rompendo com Juscelino. Concluiu Bojunga que em outubro de 1959, Álvaro Lins foi exonerado da embaixada de Portugal, devolveu ao governo português a condecoração da Grã-Cruz da Ordem de Cristo, e recusou-se a aceitar de Juscelino outras missões e cargos. Regressando ao Brasil, o mestre da crítica continuou sua luta em favor dos povos oprimidos, a democracia, a liberdade e a justiça social. o golpe de 65 o atingiu em cheio. Seu apartamento invadido no Rio de Janeiro, livros destruídos (o que ainda resta se encontra em Caruaru). Afinal, no dia 5 de junho de 1970, a depressão matou tão belo e corajoso pernambucano a serviço da cultura e da inteligência deste País. Ficou o vazio. Celso Rodrigues é jornalista celso@globo.com) |
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