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ARTIGO

Botando pra quebrar

por JURACY ANDRADE

Neste último ano do 2º Reinado, Fernando 2º está botando mesmo pra quebrar. Atropelou uma lei do Congresso com um decreto-lei (codinome: medida provisória). Amplia o desmonte da classe média e trabalhadores em geral, através de tributos ‘provisórios’ que se eternizam, de aumentos de alíquotas (de outro modo, não seria possível fingir que aplica os impostos em obras necessárias e adiadas, e ainda sobrar muito para atender ao apetite desregrado dos que se dizem representantes do povo, das empreiteiras, banqueiros etc, que decidem nossos límpidos pleitos). Se já não fosse bastante, prepara-se para virar senador biônico, nos melhores moldes da ditadura militar. Segue o exemplo do ínclito gorila chileno Pinochet e de Calígula, que nomeou senador biônico seu cavalo Incitatus. Convenhamos que temos congressistas que perdem muito em dignidade para o nobre Incitatus.

A visita do xogum ao Recife foi pífia. Aproveitou um evento de 3ª importância, na visão antissocial do governo, para tentar inflar o balão da candidatura de José Serra. Como Serra ainda é ministro, a Viúva (isto é, nós) pagou a despesa eleitoral. Sua Majestade não teve tempo para vir aqui para a inauguração da restauração da histórica sinagoga da Rua do Bom Jesus (antiga dos Judeus). Estava ocupadíssimo com a politicalha da Corte. Na segunda-feira, não parou de fazer demagogia. Serra, que, segundo ACM, ex-esteio político do xogunato, odeia o Nordeste, disse que o Recife lhe traz lembranças “do tempo em que militava por um país melhor”. Então, não milita mais...

Enquanto isso, a privatização indecorosa promovida nos dois reinados de Fernando 2º (num país como o Brasil, a empresa privada tem que conviver com a empresa pública; mas pública mesmo, controlada pela sociedade, e não estatal) está mostrando para o que serve: blecautes sem explicação, com prejuízos incalculáveis (da primeira vez, o culpado foi o ‘raio de Bauru’, lembram?, da última vez, foi um ‘parafuso frouxo’...); aumentos sem justificativa das tarifas de energia elétrica e comunicações, para compensar os denodados grupos estrangeiros que se dignaram encher suas caravelas de capitais e trazer para cá (!!??); esquartejamento da Chesf. Nossos desgovernantes deram uma freada na privatização das geradoras de energia, que são públicas até nos Estados Unidos, pátria do capitalismo.

Quanto à impunidade dos herdeiros das capitanias hereditárias, o primo de Fernando 1º e presidente do Supremo, que já mandara para a Itália o benemérito banqueiro sem-banco Salvatore Cacciola, para ele poder se livrar da Justiça brasileira (tadinho!), repetiu o caso com Marcos Magalhães Pinto e outros ex-diretores do Banco Nacional. Também, queriam tripudiar sobre uma família que participou generosamente do financiamento do golpe de 1964 e cujo patriarca, o Magalhães Pinto pai, foi um dos chefes civis da quartelada que acabou com o projeto nacional brasileiro, hoje à mercê da trupe dos Cacciolas e Pintos, que apóiam qualquer coisa que mantenha o Brasil confiável e submisso a Washington, FMI et caterva. Como é que se pode condenar e prender um pessoal assim tão chique, com ligação familiar com o xogum? Certamente levou-se em conta que a degringolada do Nacional pode ter começado com o financiamento da Redentora e posterior afrouxamento da fiscalização.

PS - Não esqueçam: hoje sai Papudinhos de Casa Caiada, aí pelas 12h, do Barzinho Girassol, na beira-mar, proximidades do Quatro Rodas. Kit à venda no local por módicos R$ 10, com direito a camisa, muita batida etc e tal.

Juracy Andrade é jornalista (juracy@jc.com.br)

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Jornal do Commercio
Recife - 02.02.2002
Sábado