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VIDA & CIÊNCIA

Ciência e cientistas

por ULYSSES P. ALBUQUERQUE

Quando falamos sobre a forma como a ciência aborda seus problemas é preciso deixar claro que as soluções que os cientistas encontram são baseadas na visão de mundo e nos conceitos que dominam a ciência em um dado momento. Isso quer dizer que o conhecimento científico é produzido em um determinado contexto cultural. Sendo assim, quando um cientista aborda um problema, todas as construções que resultarem dessa análise serão baseadas nas lentes disciplinares que ele coloca sobre os seus olhos.

Todavia, além dessas lentes disciplinares, existe todo um referencial que norteia o cientista ao construir a sua forma de ver o mundo e encarar um problema. Aprendemos na escola que a ciência se constrói com fatos que são interpretados, e se sucedem, e que o novo conhecimento é construído com base no anterior. Essa é a chamada visão linear de ciência. Mas outros filósofos da ciência, como Tomas Kuhn, consideram que o progresso científico nem sempre se dá por esse meio, às vezes podem ocorrer verdadeiros saltos que rompem com as idéias e conceitos dominantes. Isto é, simplificadamente, o que ele chama de paradigma.

Como nós vemos, descremos e sentimos o mundo ao nosso redor, é simplesmente uma das muitas maneiras de explicar o universo e a relação entre as coisas. Enfatiza Leonardo Boff que o diálogo experimental vem definindo as nossas relações com o universo. E foi assim ao tentar apreender as coisas que nasceu a ciência moderna que pretende ser a única forma legítima de compreender o universo, isso através de um método que orienta essas perquirições e sem o qual nenhum conhecimento tem valor. Sem dúvida o método científico é responsável pelos grandes avanços que pudemos presenciar e, obviamente, se não fora o reducionismo da nossa ciência, talvez, como ressaltam muitos, certas descobertas no campo da biologia e medicina ainda estariam por se realizar.

Além disso, uma nova consciência já vem emergindo no seio da própria ciência: o reconhecimento das ilusões e mitos científicos, dos quais somos legítimos divulgadores, vêm sendo postos por terra. Não queremos dizer aqui que devemos romper definitivamente com o método científico. O importante é repensar os nossos paradigmas, a maneira de ver, sentir e usar a ciência. Mas algum questionamento nos cabe fazer nesse momento como, por exemplo, a ausência de disciplinas de filosofia em muitos cursos universitários. Nossos estudantes e jovens pesquisadores são treinados em técnicas, métodos ultramodernos, são capazes de reproduzir experimentos e viver toda uma vida trabalhando para uma ciência, da qual muitos desconhecem os valores e significados. Cada vez menos se produz “pensadores”, formadores de opinião, e sem dúvida a filosofia é uma poderosa ferramenta que habilita e introduz a essa arte do pensar, do questionamento. Mas que imagem de ciência é essa que foi construída ao longo do tempo e que norteia atitudes, dita normas de conduta e padrão e faz com que as “pessoas comuns” vejam os cientistas como visionários e suas opiniões como inquestionáveis?

Na verdade, estamos vivendo numa época em que esses questionamentos são cada vez mais recorrentes. Clotilde Tavares no seu delicioso Iniciação à Visão Holística, fala de uma ideologia quase mística que retrata a ciência como tendo as respostas para todos os questionamentos, todas as dúvidas e inquietações do homem, um “passaporte” para o progresso dos seres humanos, um meio, uma forma de fornecer um quadro perfeito e exato da realidade. Nesse ponto, é preciso discutir o porquê e para que estamos produzindo determinados conhecimentos? Qual a formação ideal para os cientistas que estão se apurando no caldeirão da experiência acadêmica? Será que eles ainda devem “crer” que o nosso método é o único que pode levar ao conhecimento do mundo que nos cerca e de nós mesmos?

Uma coisa é certa, estamos em um momento propício para debates, numa época onde o questionar inteligente é extremamente desejável para definir os rumos e destino que queremos dar as nossas vidas. As descobertas científicas e tecnológicas avançam numa velocidade superior a da compreensão ética do que fazer com elas. Hoje, mais do que nunca, independente das querelas e dos conflitos ideológicos de quem quer que seja, é preciso flexibilidade e bom senso. Nos vem à mente uma estória de Khalil Gibran que iremos resumir: Três rãs sentadas sobre um tronco discutiam acaloradamente sobre o fato de estarem navegando. Cada uma aventou uma hipótese para explicar o ocorrido sem entrarem em um acordo sobre a melhor explicação. Ao fim, muito zangadas, solicitam a opinião de uma quarta rã que sem pestanejar retrucou: Cada uma de vocês tem razão, e nenhuma está errada. Sucedeu, então, um fato inesperado: as três rãs se juntaram e acabaram por jogar no rio a quarta rã.

Ulysses Albuquerque é doutor em Ciências e professor da UFRPE e da FFPG

Nota da Redação[/TIT-MEIALUA]

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Jornal do Commercio
Recife - 02.02.2002
Sábado