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MODA
INVERNO CRIATIVO

por FABIANA MORAES

SÃO PAULO – O inverno 2002 já tem a sua cara definida. Ela é composta por belíssimas botas vitorianas, muito jeans denin, criativas sobreposições, confortáveis saias amplas e um delicioso estilo folk. Diversão é a palavra chave: o humor desencanado está presente até mesmo nas produções mais ‘chiques’. A iconoclastia (sem muito grito, por favor) é a ‘peça’ mais básica da próxima estação.

A 11ª edição da Semana da Moda – Casa de Criadores, a mais importante vitrine dos novos talentos da moda brasileira, mostrou exatamente isso: quem pensa que moda é artigo para ser levado a sério precisa aprender a enxergar o lado nonsense e divertido do seu guarda-roupa. Até porque não há nada mais iconoclasta do que rir de si próprio. A SM mostrou as propostas de nada menos do que 19 estilistas, 13 deles participantes da Casa de Criadores e seis integrantes do interessante Projeto Lab, formado por criadores iniciantes. Esse caráter ‘alternativo’ – sem nenhuma ligação com amadorismo – é uma das melhores surpresas da Semana da Moda. Respirou-se inventividade e profissionalismo no evento que começou no domingo (20) e foi até a quarta (23).

Um dos representantes desse humor chique foi o estilista Mareu Nitschke, responsável pela Zapping durante cinco coleções. Nas roupas baseadas em gêmeos siameses, Mareu desconstruiu calças, terninhos e corselets, sempre confeccionados com materiais nobres como malhas gazeadas e seda pura. Algumas roupas possuem um lado completamente diferente do outro, remetendo ao mundo do gêmeos. Coleiras com pedras enormes completam esse ‘chique desencanado’ e transformam o estilo de Mareu num dos melhores da próxima temporada.

Uma das boas notícias do Lab (no primeiro dia do evento) foi a estilista Karlla Girotto, que definiu sua coleção em dois tipos de mulheres: Glacial e Magma. Tecidos porosos e confortáveis como lãs e algodão são materiais-chave. Intuitiva, Karlla chegou a costurar algumas roupas no próprio corpo das modelos. O citado conceito folk, uma das tendências mais imperiosas do inverno 2002, foi mostrado pela ótima Giselle Nasser, que participou pela segunda vez da Semana da Moda. Ex-assistente de Icarius, que hoje desfila suas coleções na Semana de Moda de Paris, Giselle se inspirou na cultura celta para criar belíssimos vestidos, saias e blusas repletos de bordados e brocados (desenvolvidos com lã). O organdi, o veludo cotelê e a gaze de algodão formam roupas cálidas, oníricas.Gisele deixou o preto de lado e optou por cores como salmão, lavanda, berinjela, abacate e tons de cinza. A moça promete.

ROUPA QUEIMADA –A veterana Marúzia Fernandes (presente no terceiro dia dos desfiles) mostrou mulheres suntuosas, dramáticas e, algumas vezes, óbvias. Muito tule e musseline em looks bastante femininos. Marúzia, no entanto, repudia o chique pelo chique. “De nada adianta ser nobre e não possuir conteúdo”, diz a criadora. Preto, roxo, cereja e mostarda são as cores vistas em tecidos estampados com enormes olhos que lembram girassóis (a estampa remete à última pesquisa da estilista, denominada Projeto Olhar). Marúzia, mais uma vez, optou pela técnica da combustão para estilizar crochês e tecidos. Uma das marcas do desfile foi a utilização de relógios de pulso (todos da Casio) como acessórios empregados em locais inusitados do corpo (no antebraço, por exemplo) ou mesmo em algumas roupas. Os vestidos para noite, no entanto, destoaram do desfile: não diziam nada de novo numa semana onde as idéias atuais são o principal combustível.

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Jornal do Commercio
Recife - 27.01.2002
Domingo