Nem tudo que reluz é ouro: gente que alcança a fama mostra que não é difícil o êxito virar motivo para autodestruição
por ANTÔNIO MARINHO e SIMONE INTRATOR
Agência Globo
Endeusada como a intérprete mais criativa do rock nacional, Cássia Eller morreu no auge. Mas o desabafo feito à companheira Maria Eugenia Martins mostrou que ela não estava feliz: “Não consigo me relacionar com mais ninguém. Só sirvo para ganhar dinheiro”. Vera Fischer, também no apogeu, passou pelo maior inferno astral, numa fase de internações e escândalos, e chegou a declarar que “vivia com os pés no abismo”. Mas ‘deu um olé’ nas armadilhas do sucesso e comemorou seus 50 anos, linda como nunca.
Trampolim para egotrips e consumo de drogas, o sucesso repentino acabou com o grupo de rock RPM, de Paulo Ricardo e Luiz Schiavon, e só agora, 12 anos depois, a banda volta a pegar a estrada com sua formação original. Luiz Alves Pereira Neto, o Ferrugem, de 35 anos, um dos nomes mais badalados da telinha nos anos 80, teve que dar um tempo: fugindo da “exposição excessiva que acaba com a privacidade”, ele passou 15 anos longe da TV. Está de volta, no programa Os Piores Clipes do Mundo, da MTV. Até o ex-craque argentino Diego Maradona não segurou a onda de sua projeção mundial e refugiou-se nas drogas. Na sua autobiografia Yo soy el Diego, disse que estava “doente”.
O sucesso costuma ser um sonho em qualquer profissão, mas tem um lado nada atraente, que pode se transformar num pesadelo: perda de referências afetivas, confusão entre o que é vida pública e privada, sensação de onipotência. No meio do turbilhão, os endeusados tendem a se isolar, recorrer às drogas, abandonar tudo ou mergulhar na depressão e na síndrome do pânico. A dificuldade de brilhar foi explicada por Freud: é mais fácil lidar com o fracasso do que com o sucesso.
CULPA – “A pessoa fica com um sentimento de culpa, como se não merecesse aquilo, ou estivesse tirando de outra pessoa. Acaba, por isso, procurando uma punição. Os outros o vêem como todo-poderoso, mas ele sabe que não é aquilo tudo. Nessa confusão, acaba se perdendo, afastando-se de si mesmo e das pessoas de quem mais gosta”, diz a psicanalista Eliana Helsinger.
Os que voltam depois de uma amarga temporada aprendem a lição. “O sucesso tem seu lado bom e ruim. Por um lado, atrapalha porque, quando você é uma pessoa famosa, é obrigado a mudar de comportamento, tem que rever atitudes. Perdi um pouco de privacidade, tem dias que você é incomodado”, diz o jogador Felipe, apoiador do Vasco da Gama, que ganhou fama de indisciplinado por discutir com treinadores e juízes, logo depois de ser considerado a maior revelação do clube, e agora volta a brilhar em campo com a camisa do time.
Roberto Carlos, lateral-esquerdo do clube espanhol Real Madri, aprendeu a lidar com o sucesso. Criticado um pouco antes da Copa do Mundo de 1998, quando disse carregar um apartamento no pulso para dar idéia do valor de seu relógio, sabe hoje que o que conta é ter uma boa cabeça e uma família que o apóie.
“A fama é repentina, sua vida pode mudar num piscar de olhos e essa mudança vem repleta de coisas novas, novos amigos, convites e propostas tentadoras, festas, noitadas, mulheres, enfim, um mundo de portas que se abre. O problema é que essas mesmas portas um dia se fecham e pode ser tarde demais. Podem custar uma vida, uma carreira. Para conviver com o sucesso é preciso ter, acima de tudo, uma boa cabeça, uma boa estrutura familiar e muita responsabilidade”, julga.
O ator Ferrugem brilhou em programas como Os Trapalhões e Balança Mas Não Cai e diz que o sucesso é maravilhoso, mas tira a privacidade. “Sempre amei os fãs, mas não é fácil lidar com o sucesso. Incomoda. Às vezes, queria ficar sozinho ou estava mal-humorado, mas não podia demonstrar. Dei um tempo porque queria fazer outras coisas fora da TV e estudar”, conta.