É hora de escolher seu bloco, sua fantasia e o local da sua farra: interior, litoral, Olinda ou Recife.O caderno Turismo & Lazer dá a dica
por BRUNO ALBERTIM
Quem olha a multidão em transe carnavalesco atrás dos blocos do Recife e de Olinda pode pensar que, antes de Cabral ou Pinzón, os primeiros pernambucanos já se reuniam, numa sintonia mais ou menos ordenada, atrás de um som, um batuque ou um barulho qualquer que os fizesse cair na folia. Pois é, há coisas no mundo que parecem existir desde sempre. Mas as coisas têm origem. De situações prosaicas, como uma brincadeira de mesa de bar, ou mesmo do empenho de gente que leva a boemia como ofício, surgiram as agremiações que formam o biscoito fino da folia pernambucana. Verdadeiras entidades, eles firmaram seus nomes na história para provar que, no Carnaval de Pernambuco, tem bloco para todo mundo.
Vamos aos fatos: às 10h da manhã do domingo de Carnaval, uma legião de quatro mil foliões, quase sempre jovens, saem da Sé fantasiados dos mais inacreditáveis super-heróis. É o bloco Enquanto Isso na Sala de Justiça. Nem parece que o bloco que se transformou num dos mais conhecidos da folia olindense não existia antes de 1994. “Um amigo nosso, que já faleceu, Tuco, teve a idéia de criar um bloco com super-heróis para animar o carnaval infantil”, diz o jornalista Beto Rezende. “Esperávamos umas 70 pessoas. Mas apareceu tanta gente que, no ano seguinte, tivemos que sair da Sé e não mais da minha casa, no Amparo”, lembra ele, um dos responsáveis pela agremiação que inaugurou as prévias com DJ’s e música pop no panorama carnavalesco local ( a próxima festa, por sinal, ocorre sábado).
Escolher um bloco para brincar o Carnaval é uma espécie de viagem pela alma festiva que atravessa gerações. É o que ocorre, por exemplo, com quem brinca no legendário Bloco das Flores. Fundado em 1920, pelos célebres boêmios Felinto, Pedro Salgo e Fenelon , o bloco lírico parou de desfilar em 1937, quando morreu Raul Moraes, “o príncipe” das marchas de bloco e então maestro e regente da agremiação. Apaixonados pelo Carnaval de Pernambuco, entretanto, resolveram ressuscitar o bloco no ano 2000. “Na década de 20, a classe média não tinha opções. Os salões eram para a elite. Então, juntaram-se algumas ‘senhorinhas’ com uma orquestra de pau e corda num coral de marcha rancho, que mais tarde evoluiria para o frevo de bloco”, diz Assis Maciel, hoje o presidente do bloco que faz sua folia na segunda de Carnaval, saindo da Praça Sérgio Loreto (16h) em direção ao encontro de blocos do Recife Antigo. “Ainda hoje”, conta, “mantemos a tradição de borrifar água de cheiro francesa durante o desfile”.
Completando 70 anos, o Banhistas do Pina, um dos que fazem o carnaval-concurso da Dantas Barreto, surgiu num Pina ainda nem urbanizado. “A primeira sede era numa casinha na maré. As mulheres que faziam o pastoril no Pina se juntaram com a orquestra e fizeram o bloco que, na época, era exclusividade de ricos. Mesmo sem dinheiro, o negócio deles era cantar e aí surgiu o Banhistas”, conta Lindivaldo Oliveira Leite, 65 anos, presidente do bloco há mais de 10.
A irreverência e a política também são combustíveis para o nascimento de blocos. Surgido em 1962, o Patuscos, um bloco de samba no meio do frevo olindense, praticamente se reinventou em 1984. Foi quando os integrantes do grupo saíram fantasiados de presidenciáveis para discutir com ironia as Eleições Diretas e, desde então, não abandonaram as paródias políticas. “Aproveitamos o maior congresso existente no País, que é o Carnaval, para dar pequenos recados no meio da folia”, diz Itacir Vasconcelos Guimarães, o presidente da batucada poderosa dos Patuscos. A opção pelo samba não é desprezo pelo frevo: “Quando formamos o bloco, há 40 anos, éramos todos estudantes e era mais barato montar uma bateria de samba. O povo gostou e o samba não parou mais”, diz.
Potência do Carnaval de Olinda, o Ceroula, que arrasta gente suficiente para encher de canto a canto a Rua do Bonfim (fala-se em 500 mil pessoas), faz 40 anos este ano com um motivo extra para comemorar: a lei que proíbe pólos não-oficiais, com som mecânico, no meio da festa. “Estava ficando muito difícil sair. Ano passado, com a proibição, o negócio melhorou muito”, diz Antônio Aurélio “Cabela”, presidente do bloco que faz o sábado e a terça de Carnaval na Cidade Alta. Até os 25 anos, só homens saiam no bloco. “Não era machismo, é que a brincadeira surgiu com um bando de homens”, justifica Cabela. O Ceroula já é patrimônio simbólico da folia, mas, como outros, surgiu de uma simples e despretensiosa vontade de brincar. O que justifica o adjetivo “democrático”, quase um clichê que costuma acompanhar a palavra Carnaval em Pernambuco. A folia tá aí. Portanto, escolha um bloco. Ou monte o seu.