por FABIANA MORAES
Se o Carnaval passado foi dominado por tchutchucas e popozudas, a festa de 2002 vai ser bem mais feliz em relação à trilha sonora que embala a folia. Saem os toscos (e divertidos) sons mecânicos do Bonde do Tigrão e entra o suingue do samba (ou samba-rock, ou sambalanço, vai da escolha de cada um). Mas é bom avisar logo de início: o ritmo não é, definitivamente, uma novidade de verão.
Nascido nos anos 60 e 70, o samba suingado imortalizado por Jorge Ben, Trio Mocotó e Clube do Balanço parece ter saído do limbo para ficar. Muito antes do Carnaval, o ritmo já dominava a cidade em projetos como o Samba Sim, de Roger Man (da Bonsucesso Samba Clube) e Salvador (um dos primeiros a tocar o ritmo nas festas eletrônicas da cidade). As festas Samba do Crioulo Doido, no Poço da Panela, assim como as prévias de blocos como o Eu Acho É Pouco e Enquanto Isso na Sala da Justiça... (que vai ter a Mundo Livre S/A) também bebem na fonte há algum tempo.
Se hoje o ritmo caiu nas graças de notívagos e adjacências, houve uma época que o som, ao ser tocado no meio das festas eletrônicas, causou certo incômodo. “Comecei a tocar samba rock em 1999. Notei que o pessoal estranhou um pouco”, diz Salvador, que divide os ritmos tocados em suas picapes em samba-rock, samba-soul e samba-funk. “A diferença está na levada de cada um. O samba-rock é bem mais rápido. Minha Menina, dos Mutantes, é um exemplo”, comenta. Uma das preferidas do DJ é 16 toneladas, de Noriel Vilela, vocalista da saudosa Cantores de Ébano (a música faz parte da coletânea de samba-rock Favela Chic, também nome de um famoso bar parisiense e que já vendeu mais de 20 mil cópias na França). Uma das boas idéias do projeto Samba Sim, do qual também faz parte o produtor Léo Barbosa, é trazer as escolas de samba da cidade para participar das apresentações. Além das escolas tradicionais, como a Gigantes do Samba, também se abre espaço para as mais inovadoras, como a D’Break, adepta dos sambões funkeados. A mistura promete.
SIMONAL –O líder da banda Mundo Livre S/A, Fred 04, é um dos mais fervorosos fãs do samba, seja ele cunhado de samba-rock ou não. “A banda surgiu em 1984 e, nessa época, já usávamos cavaquinhos e tamborins em nossas composições”, conta 04. A presença de instrumentos tão, digamos assim, brasileiros, chegou a assustar os garotos que preferiam formar bandas adeptas da língua inglesa. “Assim como também o público mais ‘armorial’ ficou desconfiado quando viu uma banda tocando guitarra ao lado de um cavaquinho”, diverte-se Fred, que prefere ir para a pista de dança quando toca um samba, “porque só bate-estaca cansa”. No último trabalho da banda, o disco Por Pouco, deveriam ter entrado duas composições de Wilson Simonal, Mustang Cor de Sangue e Na Tonga da Milonga. As músicas, por falta de espaço, acabaram ficando de fora.
Ao que parece, o sucesso do ‘novo’ samba não é apenas um fenômeno restrito ao Brasil. Na Europa, principalmente, o ritmo (assim como a bossa nova) seduz cada vez mais artistas, principalmente os ligados à eletrônica. Já beberam da fonte nomes como Thievery Corporation e a japonesa Pizzicato Five. Já DJ’s como Patife e Marky se apoderaram de belas canções de Jorge Ben para criar as já clássicas Carolina Carol Bela (Marky) e Take it Easy my Brother Charles (Patife). “Isso é legal, pois abre a porta para o Brasil em outros países. Nossa música é muito ampla, e acredito que, a cada dia, existe um interesse ainda maior por ela. Antes, os DJ’s tinham certo receio em tocar música brasileira. Hoje, isso não existe mais”, diz Fred. Para ele, o fato de o Carnaval 2002 não possuir uma música pré-fabricada é um bom indício. “É um início do final da era do hit forçado. O jabá está entrando em decadência”, diz ele. Enquanto isso, tem cada vez mais gente querendo sambar no salão.