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ESTUDO
Biólogo crê em preguiça lendária

Com base em relatos, David Oren defende que preguiça-gigante da Amazônia foi vista na região

VERÔNICA FALCÃO

Novas evidências do mapinguari, a preguiça-gigante lendária da Amazônia, foram apresentadas pelo biólogo David Oren, gerente científico da Nature Conservancy do Brasil. Em artigo publicado na revista do Grupo de Especialistas na Ordem Edentata (preguiças, tatus e tamanduás) da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), ele relata entrevistas com 80 pessoas que dizem ter visto o animal e outras sete que garantem tê-lo caçado.

Os caçadores se depararam com o mapinguari, também chamado de juma, no Pará, Acre, Amazonas e Mato Grosso. Os relatos dão conta de que o bicho foi acuado em Marabá (PA), no Parque Nacional da Serra do Divisor (AC), Juína (MG) e nos municípios de Manicoré, Carauari e Eirunepé (AM). Nenhum fragmento do animal, como pêlos ou dentes, entretanto, chegou às mãos do pesquisador, licenciado do Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém (PA).

Segundo David Oren, três dos caçadores guardaram pedaços do animal, como garras ou pêlos, mas se desfizeram do material por causa do mau cheiro. O forte odor, liberado por uma glândula possivelmente localizada na barriga, é uma estratégia de defesa do mapinguari, que tem como predador natural a onça. “Quando ameaçado, ele exala mau cheiro para espantar os animais ou pessoas.”

Não fosse um pesquisador respeitado, David Oren poderia ser alvo de chacota por acreditar numa lenda amazônica. Descobridor de pelo menos cinco espécies de aves, ele trabalha na Amazônia desde 1977. Sua principal contribuição para a região foi o mapeamento da pesquisa ornitológica, que permitiu planejar expedições a áreas nunca antes exploradas.

Mesmo assim, há quem duvide das evidências de Oren, um americano de 48 anos, naturalizado brasileiro. O professor emérito de Geociências da Universidade do Arizona, Paul Martin, é um deles. Em entrevista à Agência Reuters, no mês passado, ele comparou Oren a um caçador do Monstro do Lago Ness. “Esse tipo de comentário é absurdo porque não se pode relacionar uma lenda baseada em dinossauros, extintos há 65 milhões de anos, com preguiças-gigantes, que desapareceram há cerca de dez mil anos, ou seja, muito recentemente”, rebate o ornitólogo.

O pesquisador explica que o mapinguari é uma das espécies de preguiça-gigante pré-histórica que escaparam da extinção. Por estar muito bem adaptado à Floresta Amazônica, acabou resistindo às variações climáticas que marcaram a passagem do Pleistoceno para o Holoceno, entre 15 e 12 mil anos atrás. Naquele tempo, havia dezenas de espécies de preguiças-gigantes, a maioria em matas mais abertas, como o cerrado e a caatinga.

David Oren defende a tese de que as preguiças-gigantes também conviveram com as populações humanas pré-históricas. Segundo ele, os ancestrais dos índios contribuíram para a extinção não só desses integrantes da ordem Edentata, mas de todos os mamíferos gigantes que integravam a chamada megafauna, constituída pelos tigres-dente-de-sabre, camelídeos, mastodontes e cervos, entre outros gigantes.

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Jornal do Commercio
Recife - 06.01.2002
Domingo