Encontro de Blocos, no Recife Antigo, superou expectativas e o cansaço dos foliões. Antigas e novas agremiações se reuniram para reviver os velhos carnavais
Foi lindo ver o anoitecer com violões e pastorinhas mil! O Encontro de Blocos, na noite de segunda-feira, no Bairro do Recife, superou expectativas e o cansaço dos foliões. Foi um alento e tanto para corações saudosos, românticos, poéticos e carnavalescos. Antes mesmo das 20h, horário previsto para o evento, agremiações desfilavam pelas avenidas Rio Branco, Marquês de Olinda, ruas da Guia e do Bom Jesus, tomando logo depois a rampa do Marco Zero, Pólo Multicultural.
“Nunca vi uma cena como esta!”, exclamou Terezinha de Jesus Vasconcelos. A aposentada de 67 anos, que nos últimos carnavais incluiu o Encontro de Blocos como programação obrigatória do seu lazer, disse estar extasiada com o número de agremiações líricas que desfilaram no Recife Antigo. Ela acompanha a festa desde o início, na década de 90, quando acontecia em frente ao Bar Gambrinus, na Marquês de Olinda. Nos anos mais recentes viu os blocos tomando conta do bairro na segunda-feira de Carnaval, mas não tão certinho como dessa vez. Um veio logo atrás do outro, formando até fila para entrar na passarela do Marco Zero.
Talvez o tempo (a chuva da manhã cessou rápido) e o trânsito tenham contribuído para o encontro. O crescimento da família de blocos líricos também deu sua ajuda. Pois lá estavam, estreitando as distâncias, grupos de pouca idade como Um Bloco em Poesia, estreante formado por poetas e artistas locais, entre eles Bubuska Valença e o Véio Mangaba (Valmir Chagas), Flor do Eucalipto, que nasceu em 2000 na cidade de Moreno, além de Confete e Serpentina, que desfilou pela segunda vez.
Também não faltou a velha guarda: O Bloco da Saudade, Pierrô de São José (um com 26 e outro com 25 anos de existência), o das Ilusões e Eu Quero Mais (com cerca de 18 anos). Eles surgiram para resgatar um antigo hábito do carnavalesco do bairro de São José. Pois esta história de cantar e dançar frevo ao som de orquestra de pau-e-corda nasceu há muito tempo, na década de 20, com o Bloco das Flores Brancas, depois chamado Bloco das Flores.
Esse mesmo bloco, precursor do lado romântico do Carnaval pernambucano, sobrevive e ontem foi atração no encontro do Marco Zero. “Ele passou 67 anos sem desfilar, até que voltou em 1999”, conta o atual presidente, o professor Assis Maciel. Os 64 componentes não são descendentes dos fundadores, mas querem manter viva a tradição.
O show da segunda-feira foi dos blocos e do público, que lançou chuva de confete e acompanhou canção por canção, relembrando valores do passado ou memorizando letras do presente. Por todos os lados podia se ouvir versos como “Recife tem o Carnaval melhor do meu Brasil” (Último Regresso), “Eu quero entrar na folia meu bem” ( Hino de Batutas), “O nosso bloco é de fato campeão” (Madeira que cupim não rói) e muitos outros. A prefeitura ajudou aqueles que ainda não são afiados nas músicas, distribuindo um livrinho com letras de grandes sucessos.
Quem tem saudade não está sozinho mesmo. Os blocos líricos conseguiram reunir todas as gerações e foliões bem diferentes. Daqueles mais tímidos, que só saem de casa para ver a festa das calçadas, aos mais animados. Quando o Bloco da Saudade iniciou seu desfile, por exemplo, podia se ver entre os seguidores gente que estava antes pulando atrás das potentes orquestras de metais do imortal Ceroula de Olinda (que fazia sua apresentação recifense) e do Bloco A Zona no Reino, natural do revitalizado Bairro do Recife.
Dentro dos blocos encontravam-se avós, filhos, netos, sobrinhos e amigos. “Fui trazido ao bloco pela minha mãe”, contava Lizídio Lima, 26 anos. A mãe, Dorila, de 52 anos, desfila no Flor do Eucalipto para matar saudades dos velhos carnavais. Maria Bernadete Marinho, 63 anos, não conseguiu convencer a família, mas não se importa em sair sozinha com os amigos da agremiação, entre eles o pequeno Denilson Barreto Júnior, de 6 anos.
Para quem desfilou pela primeira vez, a sensação foi “apaixonante”, como definiu a cantora Glaucia Oliveira, componente do Eu Quero Mais, que este ano teve como tema O caçador de esmeraldas no reino do amor. Baile de máscaras, o sol e tantos outros elementos serviram de inspiração para as agremiações líricas. As fantasias, confeccionadas com recursos dos próprios desfilantes, realçaram mais ainda o cenário do Recife Antigo, decorado com cores fortes, como os tons do múltiplo Carnaval.
Quem perdeu o encontro ainda pode corrigir a falta. Na noite do próximo sábado, em Olinda, na Ladeira do Varadouro, o Bloco Eu Quero Mais promove uma grande apresentação e muitas agremiações líricas estarão presentes para matar saudades do Carnaval. Outra opção é se aproximar desses grupos ou fundar um novo para não ficar de fora na folia 2003.