Noite dos Tambores Silenciosos reuniu mais uma vez no Pátio do Terço reis e rainhas de 18 maracatus nação e de baque virado
Luzes apagadas à meia-noite. As batidas dos tambores se confundiram com as batidas dos corações. Reis e rainhas dos maracatus, babalorixás, ialorixás e foliões juntos em um só ritmo. Todos na mesma cadência. Uma saudação aos negros, ao candomblé, aos espíritos, ao bom Carnaval. Tomado pelas cores de 18 maracatus nação ou de baque virado, o Pátio do Terço abrigou, anteontem, mais uma Noite dos Tambores Silenciosos. Mas que de silenciosa não teve absolutamente nada.
Impossível resistir ao barulho forte das alfaias. Os corpos pareciam se mover sozinhos. O público foi menor que em anos anteriores. Melhor para quem estava lá, pois o espetáculo pôde ser visto sem problemas e com mais conforto. E mesmo que tenha havido menos gente, a animação dos batuqueiros, aliada aos belos trajes dos maracatus, encheu o lugar de uma energia contagiante.
Quando o babalorixá Raminho de Oxóssi, do afoxé Ara Odé, iniciou o ritual, estavam no palco a corte real de apenas seis dos 18 maracatus previstos para desfilar. A organização do evento, no entanto, preferiu não atrasar nenhum minuto da celebração. Depois de cantar várias loas e saudar entidades negras, Raminho abriu espaço para que continuassem as apresentações dos maracatus. Antes, porém, abençoou as pessoas que levantaram as mãos para receber a saudação.
Fundado em 1863 em Águas Compridas, o Maracatu Leão Coroado, um dos mais antigos do Estado, mostrou vigor durante o desfile, embora os participantes estivessem cansados de tanta folia: era a terceira apresentação do grupo naquele dia. O pequeno Afonso Henrique, de cinco anos, considerado o batuqueiro mais novo dos maracatus pernambucanos, dividiu as atenções com Cassandra, da mesma idade. O Leão Coroado tem também a mais nova rainha do maracatu: Morgana Menezes Vidal, 20 anos. Os três mostraram que, se depender deles, a tradicional Noite dos Tambores Silenciosos irá acontecer por muitos anos ainda.
PARA GRINGO VER – O comerciante Paulo Chaves Valença foi com a esposa, a psicóloga Maria Tereza Valença, conferir a tão falada folia no Pátio do Terço. “É a primeira vez que participamos dos tambores. Sem dúvida um evento que merece ser visto, principalmente para as pessoas que vêm de outros países”, observou o comerciante. Bastante animado, ele destacou a vitalidade das baianas do Maracatu Estrela Brilhante, que desfilou logo depois do Leão Coroado.
A festa acabou já de madrugada, por volta das 4h. Os últimos a subirem no Palco Luiz Freire foram os maracatus Gato Preto e Almirante do Forte. Maria Cau, uma das responsáveis pelo Pólo Afro, considerou a noite como uma das mais bonitas – e também tranqüilas – dos últimos anos. Aqueles que trocaram os tambores por Jorge Benjor (que se apresentou no Marco Zero) e Nando Reis (show na Rua da Moeda) perderam uma bela oportunidade de conhecer a riqueza da cultura negra. Terão que esperar os tambores tocarem novamente em 2003.