O futuro reverencia o passado num ritual em que crianças e adolescentes mostram como a fé e a tradição africana podem se renovar a cada Carnaval. A exemplo de seus pais, parentes e amigos, que participam dos famosos maracatus, eles protagonizaram um belo espetáculo no primeiro encontro de maracatus mirins, no Pátio do Terço, anteontem à tarde. Evento que, a partir deste ano, passa a fazer parte do calendário oficial da folia do Recife, numa espécie de prévia da Noite dos Tambores Silenciosos.
Quando os tambores mirins ecoaram em frente à Igreja Rosário dos Homens Pretos, a emoção tomou conta do pequeno público que foi assistir o encontro – a maioria parentes dos participantes. Até porque aquele espetáculo também representou o coroamento de um trabalho social que professores e educadores realizam nas comunidades carentes do Recife. “Somos o mais novo maracatu de todos. Lá no Coque fazemos um trabalho de resgate da cultura e da cidadania dessas crianças”, disse a educadora Luciana Macedo, do Maracatu Nação D’oxalá e uma das idealizadoras do encontro.
Ela estava emocionada porque podia testemunhar o engajamento das crianças, apesar da dura realidade do dia-a-dia. “Aqui elas podem dançar, tocar e cantar sem serem discriminadas”. A alegria estava mesmo estampada no rosto de cada um dos integrantes dos maracatus. “Gostei muito. Não deixarei mais de desfilar. É uma dança muito bonita”, falou Rita de Cássia Silva, 10 anos, do Nação D’oxalá.
Leandro Alves, 11 anos, carregava com orgulho o estandarte do Maracatu Nação Erê, de Brasília Teimosa, o mais antigo do Estado. “Gosto muito do maracatu. É uma cultura que herdamos do negro. Temos que divulgar e preservar”, disse com a convicção de quem conhece a história de seus antepassados.
Apesar de estar no calendário oficial, a apresentação não teve o público esperado. “Foi pouco divulgado. Lá no Marco Zero tem uma multidão. Resolvemos andar um pouco e encontramos essa maravilha”, afirmou Gina Guimarães, que não cansava de aplaudir as crianças. “Não sabíamos dessa festa. Estamos aqui por pura sorte”, falou Iracy Nunes. O coordenador do Pólo Afro da Prefeitura do Recife, Amauri Cunha, respondeu às críticas. “É a diversidade do Carnaval que permite isso. Mas para ser o primeiro encontro foi bom. A gente vai investir e apostar nessa prévia dos Tambores Silenciosos”, informou.