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Espaços urbanos
O levantamento de terrenos
vazios do Recife, conduzido pela Secretaria de
Planejamento da Prefeitura, mesmo que não leve a
resultados efetivos no campo da habitação popular, a
curto prazo, é um estudo que poderá contribuir para
complementar o conhecimento do setor fundiário em nosso
Estado. Já cobriu quarenta bairros da Capital, e deve
ter andamento.
Na primeira etapa, foram contempladas prioritariamente as
áreas mais problemáticas no tocante às condições
habitacionais, como os morros, terrenos objeto de
invasões dos sem-teto ou locais onde cohabitam duas ou
mais famílias num só imóvel. E os pesquisadores
identificaram vários espaços vazios, sejam eles de
propriedade do município, do Estado, da União ou de
particulares.
Caso a Prefeitura da capital esteja pretendendo implantar
um grande projeto que vise à redução do déficit
habitacional na cidade, conforme dizem fontes oficiais,
vai ter de conseguir muito dinheiro para indenizações.
Dos 1.916 terrenos encontrados na área pesquisada, menos
de cem pertencem aos poderes públicos. São de
particulares cerca 1.890 terrenos vazios.
Uma área insignificante no mundo rural, digamos,
10.000m2 (um hectare), é um espaço razoavelmente grande
no mundo metropolitano do Recife, cidade de dimensões
pequenas, mesmo comparada a outras capitais do Nordeste
com menor população. Causou algum espanto, assim, saber
que, das áreas vazias registradas pelos pesquisadores,
cerca de metade são constituídas por propriedades com
mais dez mil metros quadrados. Isso revela uma
concentração significativa de terra urbana.
O direito de propriedade é garantido pela
Constituição, a ele se incorporando o destino que o
proprietário queira dar aos seus bens, quer tenham sido
comprados recentemente, ou herdados. Ninguém pode ser
obrigado a vender ou renunciar a seus terrenos, a não
ser em especialíssimas condições impostas pela
Constituição. Questiona-se, porém, por quanto tempo é
lícito deixar terras, rurais ou urbanas, sem
utilização, apenas esperando valorização futura. O
Recife tem um grande problema habitacional a resolver, e
é preciso reduzir a miséria de suas 490 favelas, onde
vegetam 50% da população.
Os técnicos da Prefeitura do Recife estão atualmente
analisando cerca de 221 terrenos, para verificar suas
condições legais e apurar quantos estão localizados em
áreas de risco, com vistas a encontrar uma forma de
incorporá-los a um futuro plano habitacional. Estão
sendo observados com maior atenção aqueles cujos
proprietários são devedores de impostos municipais.
Pretende-se definir os procedimentos de negociação do
pagamento das parcelas atrasadas, algumas há vários
anos.
A tributação progressiva tem sido uma forma de
pressionar o uso social da terra, em todo o mundo. Diante
do avanço, cada vez maior no Brasil, de movimentos
reivindicatórios como os dos sem-terra e dos sem-teto,
deve haver agilidade por parte do poder constituído,
para que se encontre sempre uma solução rápida, se
possível antecipada, que desestimule invasões e outras
formas ilegais de comportamento grupal. O conhecimento da
realidade fundiária do Recife pode contrabalançar o
papel negativo que vem desempenhando a especulação
imobiliária, como obstátulo maior a uma política
habitacional voltada para populações de baixa renda.
O levantamento iniciado agora pela Prefeitura da Cidade
do Recife poderá oferecer um diagnóstico objetivo de um
problema que tende a crescer paralelamente à
concentração da renda, no País. A nossa Capital possui
400 mil pessoas morando nos morros, grande parte delas em
área de risco.
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Jornal do Commercio
Recife - 13.02.2002
Quarta-Feira
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