JOSÉ TELES
Chet Baker foi o James Dean do jazz. Porém, ao contrário de Dean, não viveu rápido, não morreu logo e não deixou um cadáver bonito. Nascido em 1929, Chet Baker morreu em 1988, ao despencar do segundo andar de um hotel em Amesterdã (nunca se soube com certeza se foi suicídio ou assassinato). O rosto bonito e fotogênico - olhos expressivos, maçãs proeminentes - mais apropriado a um astro de Holywood, que levou a histeria moçoilas americanas e européias nos anos 50, já estava precocemente envelhecido em 1968. A voz também não era a mesma, enrouquecida por álcool, drogas, noites maldormidas e a ausência da maioria dos dentes (perdidos numa surra que lhe foi aplicada por traficantes).
Paradoxalmente, a vida desregrada insuflou ainda mais o mito. Precocemente aposentado da música, por conta de seguidas prisões e recaídas no vício, Chet Baker, retornou nos anos 70, tocando e cantando como se os anos não houvessem passado para ele. Até o final continuou na estrada e nos estúdios.
Nascido em um lar estável, teve uma infância feliz. Sua carreira parecia bafejada pela sorte. Ao dar baixa do serviço militar (tocava na banda do exército), aos 23 anos, foi tocar com Charlie Parker. Aos 24, integrava o grupo de Gerry Mulligan. Aos 25 formou seu próprio combo. Imerso nas drogas (praticamente todas) até a morte, Chet Baker nunca se mostrou arrependido. Não se conhece dele, ao menos publicamente, um mea culpa. Sempre falou do que lhe aconteceu como se aquele fosse seu destino e ele apenas o seguisse. Foi um puro, para o qual não havia pecado nem perdão.
Isso fica claro no livro Memórias Perdidas (Jorge Zahar Editor, 127 páginas R$ 17), notas autobiográficas publicadas no Estados Unidos em 1997 com o título de As Though I Had Wings: Lost Memoirs (Como se Eu Tivesse Asas: Memórias Perdidas), a partir de textos manuscritos entregues à editora por uma das mulheres do músico, Carol Baker.
As memórias de Chet Baker assemelham-se a sua forma de tocar e cantar. São relatos cool de passagens de sua vida. Escreveu-as da maneira como tocou, com o mínimo de notas. O conteúdo encontra-se nas entrelinhas. Começa recordando sua passagem pelo exército em 1949 (serviu na Alemanha e na Rússia), traça um resumido histórico de sua árvore genealógica (o avô e os pais foram colonos em Oklahoma, onde o músico nasceu).
VIDA ERRANTE – Dessas reminiscências iniciais surgem as primeiras manifestações do outsider que se tornaria em poucos anos: “Comecei a perder o interesse pela escola no meu primeiro ano secundário de Redondo (cidade do litoral californiano). Matava as aulas e passava quase todos os dias na praia ou nos rochedos de Palos Verdes, mergulhando em busca de conchas de madrepérola. É claro que a minha vagabundagem desagradou a família, tivemos algumas discussões e, finalmente, decidi ir para o exército”.
Quando Chet Baker começava como músico, tocando marchas de John Phillip Sousa, aprendendo com os discos de Bix Beiderbecke (primeiro trompetista a dispensar o vibrato, ainda na década de 20), Miles Davis lançava The Birth of Cool, um álbum que influenciaria de tal forma a música de Chet Baker, que ele conta em suas memórias que continuava escutando o disco três décadas mais tarde.
As drogas foram apresentadas a Baker enquanto estudava em Lawndale, Califórnia. Ali, conheceu Andy Lambert, músico e aspirante a ator, com quem começou a fumar cannabis : “...Gostei e continuei a fumar durante oito anos, até começar a me picar, e finalmente, me viciar. Gostava muito de heroína, e usei-a quase continuamente, de um jeito ou de outro, durante os 20 anos seguintes”.
Chet Baker fala pouco de sua música. O resumo de sua técnica ele comenta logo nas primeira páginas: “Parece-me que a maioria das pessoas só se impressiona com três coisas: a rapidez com que se pode tocar, a altura que se pode atingir e o volume do som produzido”. Anteriormente, ele recorda seu aprendizado com o pianista Jimmy Rowles, da banda de Peggy Lee: “Aprendi com ele um bocado sobre como simplificar as coisas e não complicar demais a maneira de tocar meu instrumento.”