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MÚSICA
Muita atitude e pancada sonora

Duo britânico Chemical Brothers vem mais democrático em suas alquimias no álbum Come With Us

SCHNEIDER CARPEGGIANI

No dia 28 de janeiro, chega às lojas o primeiro lançamento relevante de 2002: Come With Us, do Chemical Brothers. O único grupo/artista da música eletrônica, atualmente, a tornar seus discos verdadeiros eventos coletivos e em imaginário público – Ok, tem o Moby, você pode pensar, mas o careca panfletário é só o CD Play e pronto. O duo britânico é Block rockin’ beats, Setting sun, Hey boy, hey girl, Song to the siren... Podemos ficar aqui até amanhã enunciando os seus sucessos.

O Chemical Brothers são verdadeiros escultores de um tipo de pop perfeito, que foge da clássica fórmula Abba/Blondie de refrão ou que precisa se prender a efeitos visuais como âncora (tipo o techno de vitrine do Prodigy). Tom Rowlands e Ed Simmons aparecem em fotos e clipes com suas caras de nerd e pronto. Os ‘irmãos químicos’ são sinônimos de uma música que, ao mesmo tempo, quer fugir do convencional e soar eficiente o bastante para salvar seu sábado à noite.

Come With Us foi resultado de 18 meses de trabalho de estúdio - tanto tempo ocasionou em uma série de datas de lançamento prorrogadas. Como já era possível esperar deles, o CD foge do esquemão dos anteriores. A dupla tem uma coleção de discos grande demais para escorregar no óbvio.

No novo disco, o big beat que eles criaram soa mais democrático que antes. Pelo álbum, passam doses nada homeopáticas de hip hop, teclados sujos, guitarras, barulhos, viagens lisérgicas, melancolia, elementos étnicos e, claro, muita atitude.

Sem querer extrapolar na viagem (e já extrapolando), o novo do Chemical Brothers teoriza sobre o momento no qual ‘a Terra fica grávida pela quarta vez’. Calma. Explicando: há um elemento evidente de dialogismo entre Come With Us e Maggot Brain, clássico do Funkadelic, de 71 - disco lançado em momento de tensão e crescimento do movimento negro dos Estados Unidos. Na sua capa, há a notória imagem de um black power nascendo do chão.

Antes da primeira faixa do Maggot Brain engatar, uma voz metálica anunciava que aquele era o momento no qual a Terra havia ficado grávida pela terceira vez. Em Come With Us, um recurso semelhante é utilizado, avisando ao ouvinte logo de cara: ‘venha com a gente e deixe as preocupações para trás’. Um sublime escapismo para marcar a chegada do Chemical Brothers ao novo milênio.

PSICODELIA BLACK – Come With Us é um disco rápido e direto. São 10 faixas em menos de uma hora de música. Em 2002, a dupla não assombra mais tanto quanto em Dig Your Own Hole (de 1997), porém continua provocando diversos prazeres sintéticos. Atualmente, o CB é mais satisfatório do que revolucionário, mas who cares?

A citada inspiração em Maggot Brain vai além do uso de vozes proféticas. O Chemical Brothers bebeu forte das viagens do funk psicodélico de George Clinton, vide a faixa Galaxy Bounce, que você já conhece via a trilha do filme Tomb Raider. O primeiro single It began in Afrika (hit onipresente no final do ano passado nas pistas européias) ressalta uma queda do duo por elementos étnicos, com batuques afros e barulhos selva. O resultado é matador.

Hoops é uma das melhores. Começa com violões latinos, depois engata com badidas à Paul Oakenfold – tudo isso em pouco menos de um dois minutos – e descamba em um funk popozão (pense no Afrika Banbataan de Planet Rock). As batidas quebradas continuam por My elastic eye, quase, quase, um drum’n’bass, recheado por efeitos de teclados saindo por todos os poros. Pede um remix urgente.

A faixa título, Come with us e Chemical Brothers como nós o conhecemos: contagiante. Destaque para a orquestra de violinos da sua abertura. O novo single, Star guitar, é poderoso e impressiona pela viagem climática. Um coro, lá pelas tantas, exige que você tome ‘veja o que eu veja/ tome o que eu tome’.

Como convidados, o disco conta com a cantora Beth Orton (que já havia participado do Dig Your Own Hole, em Where do I begin) e Richard Ashcroft. No primeiro caso, Beth coloca sua belíssima voz a serviço de The state we’re in, uma balada cheia de efeitos que termina com um batidão inusitado. No segundo, o ex-Verve esbanja todo seu carisma de rock star em The test. A canção perde em comparação com as duas colaborações entre o CB e Noel Gallagher (Oasis), mas o resultado final é, no mínimo, satisfatório. Come With Us pode até não provocar rupturas no universo pop (como o grupo promovia há quatro anos), mas pelo menos vai deixá-lo bem mais divertido.

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Jornal do Commercio
Recife - 15.01.2002
Terça-feira