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MÚSICA
Blues-rock brasuca tipo exportação

Guitarrista Nuno Mindelis traz ao Recife, pela primeira vez, o show Blues on the Outside, no qual interpreta canções do disco homônimo, além de temas antigos e inéditos

MARCOS TOLEDO

Demorou, mas chegou. Hoje e amanhã, o público recifense tem a oportunidade de conferir o novo show do cantor e guitarrista Nuno Mindelis, quase quatro anos após a sua primeira passagem pela cidade. O espetáculo, no bar e restaurante Barrozo, às 22h, marca o lançamento (atrasado), por aqui, do CD mais recente do artista, Blues on the Outside (Trama, 1999). No disco, Nuno toca acompanhado pela Double Trouble, banda que servia de apoio a ninguém menos que Stevie Ray Vaughan.

Entre os músicos mais conhecidos que atuam no Brasil, Nuno Mindelis, 44 anos, é um dos que têm uma das trajetórias mais curiosas. Filho de portugueses, ele nasceu em Cambinda – espécie de território da colônia angolana no meio do Zaire, na África. Quando criança, sempre quis ganhar um violão que, na época, custava caro. “Meu pai cobria meus olhos quando a gente passava em frente a uma loja”, conta. O músico explica que se virou com madeira, lata, pregos e fios de pesca até ganhar seu primeiro violão, aos nove anos.

Na adolescência, morava em Luanda, quando viveu o boom do blues, capitaneado por ingleses como John Mayall e Eric Clapton. “Moleque ocidentalizado”, como ele mesmo reconhece, diz que não tinha como assimilar a música tradicional angolana. “Era muito insipiente”, afirma. “E eu nasci ouvindo a música gringa.”

Ainda assim, Nuno lembra que ouvia de tudo. Conta que, em 1973, tinha um disco dos Novos Baianos. Depois, adquiriu um dos Secos & Molhados e o ‘ao vivo’ de Chico & Caetano no Teatro Castro Alves. Ouvia estes ao mesmo tempo que o blues de Otis Redding e Roy Buchanan, por exemplo.

Os atropelos do guitarrista, no entanto, não vieram por falta de decisão na carreira. Aos 17, ele já havia até tocado em uma rádio em Luanda, mas estourou uma sangrenta guerra civil na colônia. O músico foi com o irmão para o Canadá e os pais vieram para o Brasil. Em 1976, Nuno chegou ao Rio de Janeiro e, meses depois, juntou-se à família em São Paulo, onde vive até hoje.

Todos esses acontecimentos são importantes para entender a forma atual sob a qual se apresenta a música de Nuno Mindelis. Um blues-rock, como ele prefere definir, embora, no Brasil, as pessoas prefiram chamar simplesmente de blues.

Nuno, no entanto, não perdoa e critica quem tenta rotular sua música sem conhecimento. “Nunca vi tantos experts em blues no Brasil”, afirma. “Meus discos só são chamados de blues no Brasil. Há uma grande diferença em chamar um disco de blues-rock de blues. Não existe crítica de blues no Brasil. Se existe, não conheço.”

O músico fala com a propriedade de quem foi eleito, em 1998, pela revista Guitar Player norte-americana, o melhor guitarrista independente do mundo. Uma escolha na qual os julgadores analisavam fitas marcadas apenas por números. “Não superdimensiono (o prêmio), mas fiquei muito feliz”, conta.

Dois discos já haviam sido lançados por Nuno Mindelis, até então. Blues & Derivados (independente, 1990) e Long Distance Blues (Movieplay, 1992). Mas foi com Texas Bound (Antone’s/Eldorado, 1996) – gravado nos EUA, o primeiro com a Double Trouble – que o guitarrista alcançou o reconhecimento internacional.

Nuno conta que um empresário brasileiro aficionado por blues juntou vários álbuns de artistas nacionais do gênero e os levou para Austin, Texas, a fim de fazer uma proposta para a gravadora Antone’s. Entre os trabalhos, o seu Long Distance Blues, que logo despertou o interesse dos norte-americanos.

A partir de então, para o guitarrista, o processo foi muito rápido. Em 1995, ele tocou no Antone’s, clube que deu nome à gravadora. Depois, enviou uma fita com material inédito – “rascunhos”, como chama – gravado em seu estúdio caseiro e no qual tocava todos os instrumentos. O produtor da Antone’s mostrou o material ao baixista Tommy Shannon, que aceitou levar a sua banda, a Double Trouble, para acompanhar Nuno em Texas Bound.

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Jornal do Commercio
Recife - 15.01.2002
Terça-feira