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A corrupção nacional
Entre 91 países
pesquisados, o Brasil está em 46º lugar em matéria de
corrupção. Significa dizer: 45 países são
considerados menos corruptos que o Brasil. A pesquisa é
divulgada pela Transparência, Consciência &
Cidadania, uma entidade não-governamental fundada em
fevereiro de 1996 e ligada à Transparência
Internacional, com sede em Berlim, na Alemanha.
O que isso significa como profilaxia, é muito difícil
avaliar. O nível de corrupção é muito alto e teme-se
que a cura levará bastante tempo, exigindo desde o
tratamento preventivo nos primeiros anos de escola até o
clamor, a indignação nacional perante o quadro de
corruptos e corruptores. De qualquer maneira, contudo,
dê-se o ranking como um passo a mais para limpar o
País.
O ponto de partida para o entendimento dessa entidade
está em seu objetivo, que é o de pesquisar e estudar
ações que contribuam para o combate à corrupção,
promoção da transparência e da probidade
administrativa, conscientização ética e democrática.
Meta ambiciosa, como se vê e por isso mesmo louvável.
Principalmente porque os que fazem uma organização
desse porte costumam ser pessoas de alto nível
intelectual, que seriam muito bem aceitos do outro lado,
dos que se imaginam mais expertos.
Partindo dessa vertente, a de que felizmente ainda há
muitos brasileiros preocupados com um País transparente
e ético, é sempre muito salutar prestar atenção ao
que diz a Transparência, lembrando que alguns casos que
já denunciou redundaram na correção de rumos de
autoridades que se consideravam acima de qualquer
suspeita e, portanto, faziam uso inadequado de bens e
serviços públicos. Como o uso de transporte oficial,
pago com dinheiro do contribuinte, para receio
particular.
Mas muito mais que essa correção de desvios é
necessário alertar para a macrocorrupção, aquela que
mexe com a economia nacional e é responsável em boa
dose pelo nível de miséria dimensionado pelo IBGE em
quase um terço dos brasileiros. Agora mesmo a
Transparência Brasil está chamando atenção para
estudos mostrando que o custo da corrupção é de R$
6.650,00 por habitante, isto é, o quanto seria
acrescentado à renda per capita nacional se fosse
contido esse banditismo.
No momento essa entidade aponta para a campanha
eleitoral, mostrando que passa por esse exercício
democrático uma das mais graves deformações da
cidadania. A compra de votos macula o processo e
compromete a democracia, gerando tolerância,
aprofundando as diferenças sociais e criando as
condições para os conflitos que já estão presentes na
crônica brasileira. Eles têm a forma de terror urbano,
com a insegurança e o medo em níveis inimagináveis.
Tamanho é o serviço que a Transparência presta ao
Brasil que de imediato surgiu a suspeita de que seria
mais uma entidade destinada a alimentar projetos
eleitorais. Entretanto, a sua constituição é rígida e
bastante simplificada. Exige, por exemplo, que seu
pequeno número de sócios assinem, para ser admitidos,
termo de compromisso no qual se abrigam a não se valer
do fato de serem sócios da entidade para promoção
política.
Depurada a origem, dado como louvável seu propósito,
cabe conferir sua eficácia e essa talvez seja uma tarefa
de todos nós. Cumpre exigir probidade de todos,
independentemente do registro que faça a Transparência
Brasil. Deve-se condenar a corrupção onde ela estiver,
qualquer que seja sua suposta autoridade.
Quem rouba, quem desvia recursos públicos, quem utiliza
bens públicos em proveito particular, quem pratica
nepotismo não pode ter autoridade.
Essa é uma medicação universal que valeu e vale para
muitas nações. Há povos onde a descoberta de
corrupção representa escândalo e até comoção
nacional. O processo educacional cria uma cultura em que
a desonestidade macula gerações inteiras e a desonra
muitas vezes só pode ser tolerada com a morte. Do Brasil
não se deve exigir tanto, mas o mínimo tolerável. Como
aquela velha lição de que bastaria um só artigo de lei
Todo brasileiro deve ter vergonha na cara
para poupar a vergonha nacional em pesquisas como essa do
ranking internacional de honestidade.
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Jornal do Commercio
Recife - 15.01.2002
Terça-Feira
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