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CARNAVAL
ACERTE O PASSO PARA A FOLIA

por JANAÍNA LIMA

ROSÁRIO DE POMPÉIA

O Carnaval é só daqui a um mês, mas, acredite, se você quiser, pode começar a brincar desde já. Agremiações tradicionais como o Bloco da Saudade e Flor da Lira, ao lado de maracatus como o Nação Pernambuco, Cabralada e Maracatudo já iniciaram os preparativos para a folia de 2002. A maioria dos ensaios é aberta ao público e, como os integrantes dos blocos não vestem fantasias e os músicos ainda acertam o repertório, o clima de descontração impera. Mas, afinal, não é de improviso que se faz o Carnaval?

A favor, as prévias carnavalescas contam um público menor que o dos dias oficiais da folia, são esparsas, o que permite ‘recarregar as baterias’ entre uma e outra, e não deixam aquele gostinho de fim de festa, que marca a Quarta-feira de Cinzas e causa tanta dor aos foliões. Afinal, as prévias anunciam a proximidade dos dias de alegria de Momo, elas são apenas o início da festa.

No caso dos blocos, esses treinos festivos levam o nome de acertos de marcha. Entre os muitos existentes, o mais tradicional é o do Bloco da Saudade, realizado há vários anos na AABB, nos Aflitos. A partir das 22h, hoje e nas próximas três sextas-feiras (sem contar o baile oficial, no dia 1º de fevereiro), os quase 150 integrantes do grupo entoam os versos do hino da agremiação, Valores do passado, do compositor Edgard Moraes: “Bloco das Flores, Andaluzas, Cartomantes, Camponeses, Apôis Fum e o Bloco Um Dia Só...”. Além de ser um dos mais antigos, o Bloco da Saudade é também um dos mais organizados, já lançou dois CDs e possui um repertório oficial, editado em um pequeno livro.

As amigas Maria Amália Almeida e Ana Carolina Gouveia, que durante vários anos desfilaram no bloco, freqüentam os acertos de marcha há cerca de 20 anos. “Naquela época, tudo era mais simples, mais à vontade. As fantasias eram mais frescas, mais leves. Saíamos do Cordeiro em direção ao bairro de São José. Agora, só seguimos o bloco, não desfilamos mais”, ressalta Ana Carolina.

As prévias que antecedem ao baile são as preferidas de Amália. “Com menos gente no salão dá para dançar mais. Engraçado é que, ao longo do tempo, o público do bloco mudou, havia mais crianças antigamente”, comenta a socióloga. A paixão pelo Carnaval Amália divide também com o marido, o economista João Policarpo Rodrigues Lima. “Quando começamos a ir, éramos namorados. Deixamos de desfilar no bloco, então ele passou a sair com outros amigos no Lily (Nem Sempre Lily Toca Flauta), que, inicialmente, era só de homens. Depois de muito tempo é que consegui entrar para o bloco”, revela a foliã. Atualmente, além de desfilar oficialmente no Lily, o trio também marca presença nos ensaios do Aurora de Amor e Bloco das Ilusões.

Quem também costuma seguir o roteiro dos acertos de marcha é o advogado Marcus Vinícius de Lucena. Solteiro, aos 26 anos, ele dedica o dia aos complicados processos jurídicos e as noites e fins de semana aos ensaios de blocos e maracatus. Vai a quase todos: Saudade, Aurora de Amor, Bloco das Ilusões, Cabralada, Leão Coroado, Estrela Brilhante. De chapéu de Mateus (personagem do boi bumbá) na cabeça ou de alfaia pendurada nos ombros, Marcus sabe de cor os horários e locais das prévias. “Adoro Carnaval. As prévias são uma forma de esticar a folia”, diz.

Desde o ano passado, Marcus faz parte do grupo Fuá na Estrela, que se reúne, semanalmente, o ano inteiro. “Somos 25 pessoas, entre médicos, advogados, arquitetos, e outros profissionais que nos propomos a tocar de tudo: frevo, maracatu, afoxé, samba...”, conta, animado. Até o início do Carnaval, os integrantes do Fuá na Estrela aquecem o público antes dos ensaios do Cabralada, aos domingos, em frente ao Museu de Arte Contemporânea, em Olinda, sempre a partir das 15h. O grupo está preparando uma camisa oficial para os dias de Carnaval e planeja desfilar nas ladeiras da Cidade Alta.

Outro grupo de formação recente e que também já iniciou os preparativos para a festa da carne (o significado ‘primitivo’, descrito na Bíblia) é o Um Bloco em Poesia. Preparando-se para estrear no Carnaval do Recife, a agremiação percorreu um caminho inusitado: primeiro, lançou um CD de frevos-de-blocos inéditos, no ano passado, e, só agora, concretizou sua formação, um desejo antigo de João Araújo, diretor do novo bloco.

Assim como Marcus Vinícius e turma, João é freqüentador assíduo de prévias. “Além dos ensaios do bloco, todos os domingos, durante a semana, rondo a cidade em busca de acertos de marcha. Sempre fiz isso, acho que veio daí a vontade de formar um bloco”, conta o agora carnavalesco, que não perde os acertos de marcha do Bloco da Saudade e nem os do bloco Eu Quero Mais, às quarta-feiras, no Pátio de São Pedro.

Aqueles que não têm uma agremiação preferida, podem usar a mesma tática que a estudante Carol Luna, 21 anos. ““Há três anos que vou para Olinda e fico em frente ao Mercado da Ribeira, durante a semana prévia. Me divirto como se já fosse Carnaval. Às vezes, vou até fantasiada”.

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Jornal do Commercio
Recife - 11.01.2002
Sexta-feira