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SAÚDE
Ombro congelado

A doença causa dor gradativa e a sensação de que as articulações musculares da área afetada estão completamente paralisadas

JÚLIA NOGUEIRA

Capsulite adesiva do ombro. Para facilitar o entendimento, o nome complicado pode ser convertido para a forma mais popular, que denomina o problema como ‘doença do ombro congelado’. De acordo com o ortopedista e membro das Sociedades Brasileiras de Cirurgia do Ombro e de Artroscopia, Dr. Túlio Vinícius, chama-se de ombro congelado porque o paciente tem dor gradativa e a sensação de que as articulações musculares dessa área estão completamente paralisadas, impossibilitando-o de realizar movimentos em qualquer direção. Além dessa dificuldade, dores fortes também compõem o quadro dos principais sintomas do problema.

Trata-se de uma doença inflamatória de causa desconhecida e autolimitante. Geralmente, esse processo dura, em média, três anos. A doença pode aparecer nos dois ombros ao mesmo tempo ou em um de cada vez.

“O volume interno da cápsula que envolve a articulação do ombro diminui. Com essa redução do espaço articular, a amplitude de movimentos do ombro também diminui”, explica. “Numa analogia simples, é como se a articulação normal fosse um maracujá maduro. Já a articulação de uma pessoa com capsulite adesiva seria como um ‘maracujá de gaveta’, mais encolhido”, completa o médico que é autor de uma tese de mestrado sobre a doença pela Escola Paulista de Medicina, em 2000.

HISTÓRIA - A capsulite adesiva foi descrita pela primeira vez na literatura médica no século 19, em 1872, por Duplay, sob o nome de pericapsulite. A doença teve muitas denominações, até chegar à forma como é conhecida hoje. Segundo o médico, a doença tem diagnóstico difícil e acomete, principalmente, mulheres acima dos 40 anos.

De acordo com o médico ortopedista e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Ombro, Saulo Monteiro, apesar de não ser uma doença psicossomática, o fator psicológico também contribui para o aparecimento. “Pessoas que estão emocionalmente frágeis por terem sido expostas a situações desagradáveis ou traumas, são mais susceptíveis a ter a doença”.

A capsulite apresenta-se de duas formas: a primária, em que não tem relação com nenhuma outra doença, e a secundária, que pode estar associada a doenças como diabetes, problemas na tireóide, enfartes, entre outras. O uso de medicamentos antidepressivos (à base de fenobarbitúricos) também pode contribuir.

Independente da forma como se apresenta, a doença tem três fases bem definidas: a primeira caracteriza-se pelas dores fortes e intensas, na segunda, a dor começa a diminuir e ocorre o congelamento propriamente dito. Na terceira fase, o paciente começa a restabelecer os movimentos de elevação dos braços e rotações interna e externa do ombro.

Na realidade, não se conhece as causas da doença, nem o motivo pelo qual, estatisticamente, ela acomete mais o sexo feminino. Existem algumas teorias que tentam explicar a origem do problema. Uma delas é que a capsulite adesiva ocorre devido a alterações no Sistema Nervoso Simpático (SNS), responsável pelas descargas de adrenalina e pela sensação de ‘ficar branco’ após um susto. Túlio Vinícius explica que é como se ocorresse um curto-circuito nesse sistema, que passaria a emitir descargas. “Essas descargas causam alterações vasculares de sensibilidade no membro inferior”, diz.

Segundo Túlio Vinícius, os pacientes tendem a demorar um pouco a procurar um especialista para diagnosticar o problema. “Algumas vezes, as pessoas subestimam o problema e acham que vão ficar boas apenas evitando movimentar a região afetada”, diz. Para piorar ainda mais, a doença tem diagnóstico difícil.

De acordo com Saulo Monteiro, dentre as patologias do ombro, a capsulite tem uma incidência muito alta. “O diagnóstico é muito fácil de ser confundido e muitas vezes passa batido por alguns médicos, por ter sintomas semelhantes a outros problemas do ombro. Isso acaba fazendo com que muitos pacientes peregrinem por vários profissionais até chegar a um especialista”, diz. “É preciso analisar muito bem os dados sobre a história clínica do paciente para dar o diagnóstico correto”, completa.

CIRURGIA - Por ser uma doença de tratamento longo, a capsulite adesiva exige paciência. Túlio Vinícius afirma que existem várias maneiras de lidar com a doença. Desde não tratar e só observar, até as intervenções cirúrgicas. Uma das técnicas é a distenção hidráulica, que injeta um líquido na articulação para preencher o espaço encolhido, fazer pressão e distender o local. Essa infiltração é feita sob efeito de anestesia e manipulação do local.

Outra técnica é a cirurgia artroscópica, que tem a vantagem de não agredir a articulação com grandes cortes. Com um pequeno furo, é introduzida uma microcâmera dentro da articulação. Em outra abertura, é colocado um aparelho como um cano muito fino para fazer a limpeza do local. Segundo o médico, que é especialista nesse tipo de cirurgia, a técnica oferece risco de infecção hospitalar dez vezes menor em relação aos métodos tradicionais, não necessita de uso de antibióticos e o paciente recebe alta 24 horas após a operação. Nos dois casos, consegue-se restabelecer o movimento do ombro dentro de quatro a seis meses. Os especialistas lembram que qualquer que seja o método adotado, é necessário fazer fisioterapia complementar para alongar e fortalecer a articulação.(J.N.)

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Jornal do Commercio
Recife - 13.01.2002
Domingo