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Turistas no lugar de
criminosos
O Dr. José Romero Maciel
de Aquino, juiz de Direito da Comarca de Itamaracá, vem
enfrentando uma batalha particular de tremenda
importância e com pouca ressonância até agora. Com a
autoridade de quem conhece os caminhos do crime e do
castigo, de quem por ofício é obrigado a pensar na lei
e na pena, e mais com a intimidade com a história e
geografia de Itamaracá, ele está defendendo a retirada
das penitenciárias daquela ilha, com a
descentralização do sistema prisional em Pernambuco.
É surpreendentemente simples e objetivo e raciocínio
desse magistrado. Ele mostra, por exemplo, que a
instalação da Penitenciária Agrícola de Itamaracá na
década de 40 tinha um significado respeitável e
compreensível. Era tempo em que a ilha estava
praticamente desabitada, era de difícil acesso e se
prestava muito bem a abrigar um presídio-modelo, como de
fato foi a PAI durante muito tempo. Entretanto e o
juiz tem os dados estatísticos e históricos para
comprovar o adensamento populacional da ilha, o
crescimento do número de sentenciados, a quebra da
disciplina nos estabelecimentos prisionais transformaram
o modelo em um pesadelo.
Mas o magistrado não raciocina apenas em relação à
importância da descentralização do sistema
penitenciário quando pede sua retirada da Ilha. Ele
vislumbra a segurança da população e, sobretudo, a
criação de um núcleo turístico sem igual no Nordeste,
com amplo retorno à economia do Estado e,
conseqüentemente, a criação de condições materiais
apropriadas para o enfrentamento da criminalidade.
Se essa combinação de política penitenciária com
projetos de natureza econômica já seria suficiente para
merecer uma abordagem mais atenta, veja-se o que ele
contém de justiça social até mesmo no gesto do Estado
ao reprimir o crime com a segregação: o juiz Romero
mostra que a forma como a ilha vem sendo utilizada para
depósito de sentenciados é uma espécie de degredo, de
exílio, com graves efeitos, porque as famílias dos
prisioneiros migram para Itamaracá, os filhos ficam
excluídos do meio social e com facilidade enveredam pelo
caminho da criminalidade.
O que sugere o magistrado: as penitenciárias de
Itamaracá estão instaladas numa área de 1.600 hectares
que poderiam ser utilizados para construção de hotéis,
clubes de campo, chácaras, parques aquáticos, gerando
empregos e recursos que iriam auxiliar o sistema
penitenciário descentralizado. Essa é uma constatação
que parece de uma lógica irretocável, mais ainda quando
se entende que ajustada à realidade que exige medidas
radicais para o combate à criminalidade.
Não é compreensível que esse combate repercuta tão
profundamente na vida de tantas pessoas como ocorre com o
sistema vigente. Foi assim, por exemplo, com a Casa de
Detenção do Recife. Ela teve sua importância
histórica ao ser construída no século 19 para atender
às peculiaridades da época. Na década de 70 do século
20, era considerada uma anormalidade no Centro do Recife
e virou uma Casa da Cultura. O que isso representou em
matéria de segurança e qualidade de vida para a
população da Capital é um dado ainda não
quantificado. Mas é visível a justeza da mudança.
Cabe, pois, verificar mais profundamente a proposta que
vem sendo feita pelo magistrado, porque ela parece conter
os mesmos ingredientes da Casa de Detenção. Itamaracá
é o lar de muitos pernambucanos que querem trabalhar e
viver em paz. Pode ser, também, um grande espaço de
cultura e lazer, com repercussão na economia de
Pernambuco. As penitenciárias, essas podem ser
espalhadas pelo Estado, podem ser como sugere o
juiz revitalizadas as cadeias públicas para o
cumprimento de pequenas penas, estas já enquandradas em
uma nova política criminal na ótica de um dos maiores
criminalistas do Brasil em todos os tempos, Evandro Lins
e Silva, para quem a evolução aponta para o fim das
prisões e uma nova forma de abordar a pena. Uma
revolução em andamento, que poderia ter entre nós, em
Itamaracá, um saudável capítulo inicial.
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Jornal do Commercio
Recife - 18.01.2002
Sexta-Feira
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