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EDUCAÇÃO
Astronauta ou bailarina?

As escolas definem a profissão dos seus filhos? Muita gente acha que sim, e adota diferentes métodos para garantir o futuro das crianças. Resta saber se isso é bom para elas

BRUNO ALBERTIM

Escolas tradicionais ou ‘alternativas’? Para alguns pais, essa é a primeira escolha para a definição do futuro profissional dos filhos. Bem antes do vestibular, portanto, os pais não exergam apenas uma simples criança brincando no tapete da sala. Vêem futuros grandes advogados, médicos em potencial ou quaisquer outros profissionais de prováveis status e segurança financeira. Esse tipo de preocupação tem fundamento? E mais: é saudável?

Engenheiro, Osvaldo Barreto, 38 anos, é um exemplo de pai que cedo começou a pensar na carreira do filho. Resolveu mudar a linha pedagógica da escola de Rodrigo, 6, depois de ele ter concluído a alfabetização num colégio sócio-construtivista. Motivo: receio de que ele quisesse optar, no futuro, por uma atividade também tida como alternativa demais ao que é estabelecido como profissão de sucesso.

“A escola realmente estimula muitos questionamentos, desenvolve a inteligência. Não vou impor uma profissão a ele. Mas, num ambiente escolar muito aberto, acho que os jovens acabam optando por coisas alternativas demais, como querer ser artista”, diz. “Nada contra isso, mas poderia lhe gerar instabilidade na vida”, justifica.

Para profissionais de educação, preocupações desse tipo não passam de idéia pré-concebida. “Seria preciso fazer uma pesquisa para saber se, realmente, a linha pedagógica da educação que o aluno recebeu pode influir na escolha da profissão”, diz Lícia Maia, diretora do Centro de Educação da Universidade Federal de Pernambuco. Ela, contudo, dá um aviso sobre a autonomia que crianças e adolescentes podem desenvolver em escolas que adotam, por exemplo, o Construtivismo, a linha pedagógica que, hoje, mais cresce no mundo. “Esses jovens, por terem suas capacidades críticas estimuladas me parecem ser os alunos que ousarão fazer algo que lhes dê prazer e não apenas responder ao que o pai quer”, observa.

PRIMEIRA DA TURMA –No outro viéis dessa moeda estão pais menos preocupados com a definição precoce dos filhos. Preferem investir em formação geral e ampla.

“Depois que concluiu a quarta série do fundamental numa escola alternativa, minha filha mais velha teve que ir para uma escola mais tradicional, por falta de opções em Olinda, onde moramos. Ela demonstrou notas maiores que a média da classe”, diz a jornalista Emília Lucena, duas filhas, Elisa, 12, e Alice, 7. “Por causa da escola, elas tiveram, desde cedo, um interesse muito grande pela leitura. Apresentam também questionamentos sociais e políticos que eu não percebo em sobrinhos meus da idade delas”, diz. Entre uma atividade e outra, como passeios e cinema, Elisa, por exemplo, tem agora, como programa de férias, a leitura de O Mundo de Sofia, livro que traça um curioso panorama da sobre a Filosofia no Ocidente. “Ela adora Ciências Exatas. Filosofia foi sua última descoberta”, conta a mãe.

Lícia Maia, da UFPE, diz que o modelo tradicional de educação baseado no acumulo de informações repassadas unilateralmente do professor ao aluno está fadado ao ostracismo. “O sujeito que quiser acumular toda a informação que recebe hoje, de dentro ou de fora da escola, está perdido. É preciso entender o processo de construção do conhecimento para que se possa eleger as informações que serão utilizadas”, diz.

Por isso, mesmo sem radicalizar na proposta, escolas tidas como tradicionais se valem de métodos construtivistas, como o levantamento de hipóteses, a pesquisa e a discussão sobre as matérias abordadas em sala de aula. A especialista, contudo, não louva todo e qualquer estabelecimento de ensino por adotar métodos de construção compartilhada concebidos pelo filósofo suíço Jean Piaget e, depois, revisto por pensadores como Vigotski, que cunhou o termo sócio-construtivismo. “Piaget tem sido vulgarizado e estereotipado. Não se pode abandonar o aluno ao papel de construtor solitário do conhecimento”, diz a pedagoga.

A maioria das escolas de linha ‘alternativa’, contudo, sabe que conteúdo formal não pode ser desprezado. “Primeiro, os alunos levantam hipóteses sobre os assuntos, o que os envolve com as matérias. Eles vão confrontar esse ‘conhecimento construído’, com o conhecimento formal, o que os torna mais críticos”, diz Ana Rosa Zírpoli, coordenadora pedagógica da Escola Encontro, das Graças.

Há choques quando um aluno migra do Construtivismo para o método tradicional? Um pouco. “Quando eles chegam nas escolas tradicionais, não são simplesmente os alunos que fazem o que lhes mandam. Mas, sobretudo, questionam o porquê sobre fazer o que lhes mandam. Discutem e propõem alternativas”, acredita Sandra Selva, coordenadora da escola Grupo Zab, de Olinda.

SERVIÇO:

Escola Encontro: 3222.1506

Grupo Zab: 3429.4499

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Jornal do Commercio
Recife - 13.01.2002
Domingo