BRASÍLIA – Com um discurso de 25 minutos no qual recolocou Itamar Franco (PMDB) no panteão do Plano Real, prometeu manter as coisas certas do atual Governo, elogiou a oposição e criticou indiretamente Ciro Gomes (PPS), o ministro José Serra (Saúde) lançou ontem a sua candidatura a presidente, sob o lema “Nada contra a estabilidade, tudo contra a desigualdade”.
À mesa, organizada sob medida para demonstrar a unidade tucana, Serra ficou entre o governador do Ceará, Tasso Jereissati, e José Aníbal (SP), presidente do PSDB, dois antigos adversários de sua candidatura. Serra e Tasso se dirigiram um ao outro apenas uma vez. O tom da reunião foi dado pelo presidente da Câmara, Aécio Neves. “É o PSDB se encontrando e se reencontrando.”
Tasso foi aplaudido quando Aécio lembrou que ele desistira da candidatura. “O PSDB iniciará e terminará essa jornada unido. Acima das postulações, existe um projeto de País”, disse Aécio. No entanto, o clima de paz durou pouco. Em tom crítico, Tasso deixou no ar a dúvida sobre a sua participação na campanha de Serra, ao afirmar que “a responsabilidade pelo sucesso, a partir de agora, é do ministro da Saúde”.
Durante o evento, Mário Covas foi homenageado, na figura da filha, Renata. Serra abraçou emocionado uma convidada especial: Vilma, viúva do ex-ministro Sérgio Motta.
O ministro começou a falar às 13h40. Num discurso de 14 páginas datilografadas, no qual introduziu alguns cacos enquanto lia, começou dizendo: “Venho hoje (ontem) declarar que sou candidato a presidente da República”. Logo no terceiro parágrafo, uma frase de efeito: “O progresso ou é de todos ou não é duradouro. Se o progresso for só para alguns, logo não será de ninguém.”
No lema “Nada contra a estabilidade, tudo contra a desigualdade”, Serra sintetizou o sentimento dominante de seu pensamento, segundo o qual “a estabilidade não é uma camisa-de-força que impeça investir na área social”.
Foi um recado também para o Nordeste, região na qual enfrenta dificuldades políticas: freqüentemente Serra é acusado de discriminar o Nordeste. Além disso, Roseana, pré-candidata do PFL, é forte nessa parte do País.
Serra juntou Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Franco Montoro e Fernando Henrique entre os líderes da construção do “Brasil moderno”.
FHC, levado ao Ministério da Fazenda por Itamar Franco, entra na relação como “o presidente que derrotou a inflação após 15 anos, oito planos de estabilização e quatro moedas diferentes”.
Na parte referente à sua passagem pela Saúde, Serra destacou a aprovação dos medicamentos genéricos e “a vitoriosa proposta brasileira que permite a quebra de patentes de remédios essenciais”. Na parte final do discurso, Serra falou de sua biografia como homem público, do exílio, em 1964, ao Ministério da Saúde.