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RIO DE JANEIRO
A volta da arte do século 19

Com obras de Frans Post e quadros tidos como ícones da cultura nacional, a Galeria do Século 19 do Museu Nacional de Belas Artes reabre suas portas

Depois de quase um ano fechada, finalmente voltou aos olhos do público a monumental Galeria do Século 19, o mais importante espaço do Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), no Rio de Janeiro. Um discreto e pouco badalado concerto de música clássica marcou a abertura do salão, há pouco mais de um mês. Pouco tímida, no entanto, é a exposição de fôlego que está em cartaz para marcar o reencontro da galeria com o público.

Dezenas de obras foram reunidas numa exposição montada para que o visitante possa ter um eficiente resumo da arte que o Brasil produziu ao longo daquele século, quando paisagens tropicalmente exóticas e costumes do ‘novo mundo’ invadiram as telas de artistas que vieram da Europa para o Brasil. A exposição permanente está montada em ordem cronológica, iniciando com quadros do autor holandês Frans Post, que esteve no Brasil dois séculos antes do século 19, como membro da comitiva do príncipe Maurício de Nassau. Duzentas obras integram a Galeria do Século 19 como um todo.

Fechada em abril, a galeria passou por obras de complementação da sua restauração inicial, com a recuperação da cor original das paredes e portas, e a recuperação dos vidros. Além disso, a Século 19 foi dotada de novos controles de umidade, calor e segurança. Acredita-se que, agora, a galeria está nos mesmos patamares de qualidade dos grandes museus do mundo.

O prédio é realmente monumental. São dois mil m² e 8,5 m de pé-direito. A Galeria do Século 19 concentra cerca de 150 obras, algumas consideradas verdadeiros ícones da cultura brasileira. Lá estão telas como A Primeira Missa no Brasil e Batalha dos Guararapes, de Vitor Meireles, e Batalha do Avaí, de Pedro Américo. Só para se ter uma idéia da grandiosidade das obras, as pinturas das batalhas estão incluídas entre as quatro maiores do mundo pintadas em cavalete. Cada uma delas tem cerca de 50 metros de área.

A Século 19 exibe trabalhos de inúmeras gerações de pintores formados pela prestigiosa Academia Imperial de Belas Artes. A lista, talvez mais conhecida por historiadores que pelo público de artes plásticas em geral, é extensa. Dentre os autores, estão Araújo Porto-Alegre, Eliseu Visconti, Agostinho da Motta, Belmiro de Almeida, Rodolfo Amoedo, Almeida Júnior. Alguns de seus temas prediletos: o nú, a cena de gênero, o retrato, a pintura do tema religioso.

No andar térreo, além do pátio interno com jardins de Burle Marx e de um grande painel de azulejos de Djanira, encontra-se a Galeria Mario Pedrosa, onde estão expostas as matrizes da arte feita no Brasil: arte indígena pré-cabralina, africana, popular, de imagens do inconsciente e exemplares de arte européia. Ao lado, uma galeria especial exibe peças de arqueologia clássica. No segundo andar, pode-se ver as obras da coleção de pinturas italiana barroca, flamengo-holandesa, as salas Boudin e Taunay, uma seleção de pintores que passaram pelo Brasil no século 19, além de espaços para exposições temporárias, onde destaca-se a sala Bernardelli.

O MUSEU – O Museu Nacional de Belas Artes foi criado ainda no século passado, no dia 13 de janeiro de 1937. Sua inauguração se deu no dia 19 de agosto de 1938, com a presença do então presidente Getúlio Vargas. A nova instituição instalou-se desde a sua criação no edifício da Escola Nacional de Belas Artes, na Avenida Rio Branco, uma das mais movimentadas do centro do Rio de Janeiro.

Sua história possui curiosidades. Um dos mestres da Escola, Adolfo Morales de Los Rios (1858-1928), foi o arquiteto responsável pela obra. O edifício foi elaborado no estilo fin-de-siècle e lembra certos palácios renascentistas franceses, com uma influência clara do Louvre de Paris.

No prédio, também estão características formais neoclássicas. O acervo do museu teve origem na pequena coleção de quadros trazidos ao Brasil por Joachim Lebreton (1760-1819), chefe da Missão Artística Francesa, que aqui chegou em 1816.

Entre pinturas, esculturas, arte sobre papel e mobiliário, o acervo do MNBA conta nada menos que 15 mil peças. É a instituição do Brasil que possui a maior e melhor coleção de arte brasileira do século 19. Percorrendo o museu, o visitante vai poder vislumbrar a história completa das artes plásticas no Brasil, desde os seus primórdios até a fase contemporânea.

PERNAMBUCO NO MNBA – O museu possui ainda uma magnífica coleção estrangeira, onde despontam conjuntos notáveis como a coleção de 20 paisagens do pintor pré-impressionista francês Louis-Eugène Boudin (1824-1898), doadas na década de 20 pela baronesa de São Joaquim; as oito magníficas paisagens de Pernambuco de Frans Post, sem dúvidas o grande pintor holandês do século 17, além dos inúmeros quadros de mestres italianos e franceses dos séculos 17, 18 e 19, tais como Gianbattiste Gaulli, Il Baciccia, Giovanni Battista Tiepolo, Francesco Guardi, Nicolas Antoine Taunay, Jean Baptiste Debret, entre outros.

O acervo é completado por uma vasta e importante coleção de gravuras e desenhos nacionais e estrangeiros: Annibale Carracci (1560-1609), Honorè Daumieri (1808-1879), Jacques Callot (1590-1635), William Turner (1775-1851) e Pablo Picasso (1881-1973) são alguns dos artistas representados.

Como não poderia deixar de ser, os nomes mais expressivos do panorama brasileiro das artes plásticas do século 20 também fazem parte do acervo do MNBA. Portinari, Djanira, Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti, Goeldi, Cícero Dias, Segall, Amílcar de Castro, Iberê Camargo, Rubens Gerchman, Jorge Guinle Filho e Waltércio Caldas, entre muitos outros.

BIBLIOTECA – Além de ver as obras, no MNBA o visitante também pode ler sobre elas. A biblioteca do museu iniciou suas atividades em 1937. Atualmente, conta com um rico acervo bibliográfico, áudio-visual e documental, mantendo intercâmbio de correspondência e publicações com algumas das instituições mais importantes do Brasil e do exterior, incluindo galerias de arte e museus regionais.

Entre as cerca de 13 mil publicações nacionais e estrangeiras do acervo, encontram-se livros sobre artes plásticas e sobre assuntos como arquitetura, museologia, História do Brasil e da cidade do Rio de Janeiro. Merece destaque o acervo de biografias de diversos artistas. Além de obras de referências, catálogos de exposições e recortes de jornais. O acervo áudio-visual é composto por cerca de 12 mil slides, 50 vídeos e ainda cerca de 500 fitas-cassetes, com gravações de palestras, depoimentos etc.

HISTÓRIA – Toda a documentação textual e fotográfica que registra a história do MNBA, a partir da Academia Imperial de Belas Artes até a criação do museu, está reunida no acervo documental da biblioteca, cujo nome oficial é Araújo Porto Alegre. O nome da biblioteca é uma homenagem que o Museu presta ao pintor, cenógrafo, arquiteto, caricaturista, poeta e diplomata, pioneiro dos estudos de história e crítica de arte no Brasil, Manuel de Araújo Porto Alegre. A biblioteca do MNBA oferece ao público serviços de consulta no local; orientação e pesquisa; levantamento de informação bibliográfica; empréstimo de slides e fitas de vídeo; e reprodução de publicações (restrita à brochuras).

Serviço: A visitação na galeria pode ser feita de terça à sexta, das 11h às 17h e aos sábados e domingos, das 13h às 17h. Para isso, basta o pagamento do ingresso no valor de R$ 4. Já a Biblioteca / Mediateca Araújo Porto Alegre funciona no mesmo horário de segunda a sexta-feira e a partir das 11h, aos sábados e domingos. A entrada é gratuita aos domingos. Informações pelo telefone:0XX21.2240.0068

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Jornal do Commercio
Recife - 17.01.2002
Quinta-feira