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SAÚDE
Epilepsia

Apesar de ser quase totalmente controlável, a doença ainda vive

cercada de preconceitos. No Recife, apenas um especialista realiza a polêmica

cirurgia reparadora

JÚLIA NOGUEIRA

Uma alteração temporária e reversível do funcionamento do cérebro, sem que a mesma tenha sido causada por febre, uso de drogas ou distúrbios metabólicos. Assim é a epilepsia, que se caracteriza por descargas emitidas pelo sistema nervoso central. Durante algum tempo, que pode variar de segundos a minutos, uma parte do cérebro emite sinais incorretos, que podem ficar restritos ao local ou espalharem-se. De acordo com a neurologista infantil e representante da Liga Brasileira de Epilepsia em Pernambuco, Adélia Henriques Souza, trata-se de uma doença ou distúrbio crônico do cérebro, no qual ocorre descarga nos neurônios, o que causa a crise epilética. Ela explica que o caráter crônico ocorre com a repetição constante das crises.

Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), entre 1,5% e 3% da população mundial têm ou vão ter epilepsia. Existem dois tipos de epilepsia: a primária e a secundária. A primária se caracteriza por não ter causa, motivo ou sintoma que a justifique. “Todos os exames, tanto o neurológico quanto os de imagem do cérebro, dão resultados normais”, explica a médica. Já a epilepsia secundária ou sintomática, como também é chamada, tem causa definida, que pode ser um tumor, uma lesão no cérebro, um Acidente Vascular Cerebral (AVC), seqüelas de uma meningite, traumatismo craniano ou pela formação deficiente do sistema nervoso ainda no período da gestação.

A doença se manifesta por meio de crises, que podem ocorrer de diversas formas. Uma das mais comuns é a crise convulsiva, com manifestação motora e abalos musculares dos membros. Os principais sintomas são a perda de consciência, contrações violentas de braços e pernas, rigidez, respiração irregular e salivação abundante. Pode haver crises, contudo, sem convulsão.

Um exemplo comum desse tipo é a crise de ausência. Nesse caso, a principal característica é o olhar parado, como se a pessoa se ‘desligasse’ por alguns segundos. “Existem muitas outras formas de manifestações, que vão depender da área do cérebro que está emitindo as descargas”, afirma Adélia. A exemplo desses outros tipos, existem as manifestações luminosas, alterações no humor, no comportamento e na fala.

Na maioria dos casos, a doença é tratável e controlável com êxito. O tratamento é feito com medicamentos, que variam de acordo com o tipo e a forma da epilepsia. Cerca de 80% dos casos têm controle. O restante, considerados casos de difícil controle, são chamados de refratários e não respondem ao tratamento com as drogas antiepiléticas. É para um grupo reduzido de pacientes com essas características que pode ser indicado o procedimento cirúrgico. A questão da cirurgia da epilepsia ainda divide opiniões entre especialistas. No Recife, apenas o médico Paulo Tadeu Brayner, que trabalha no Hospital da Restauração, realiza a operação. “É importante lembrar que a cirurgia é o último recurso e só deve ser feita com pacientes refratários. Eles devem realizar diversos exames”, pondera Adélia. Segundo ela, em todo o Brasil só existem cinco centros credenciados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) a fazerem a operação. Nenhum deles está no Recife.

A epilepsia é uma doença que predomina na primeira década de vida. Geralmente, adultos epiléticos já possuem a doença desde a infância. Adélia afirma que cerca de 400 crianças são atendidas por mês no ambulatório de Neurologia Infantil do Instituto Materno Infantil de Pernambuco (Imip). Segundo ela, cerca de dois terços desse total têm epilepsia. A especialista diz que, mesmo entre famílias de diversos níveis sociais, não existe diferença na abordagem sobre a doença. “A maioria dos pais não pronuncia a palavra ‘epilepsia’. Todos tratam a doença de maneira indireta. Quando damos o diagnóstico, é como se estivéssemos jogando uma pedra na cabeça deles”, revela.

SEM PRECONCEITOS –É justamente para desmistificar a doença que alguns médicos trabalham mais ativamente. É importante lembrar que a epilepsia não é doença mental, nem sinal de pouca inteligência. Também não é contagiosa e nem deve ser motivo de vergonha ou discriminação. “É preciso conscientizar a população. Grandes nomes da História como Napoleão, Machado de Assis e Júlio Cesar foram epiléticos”, lembra.

Há cerca de sete anos, foi criada a Associação dos Portadores de Epilepsia de Pernambuco. A entidade surgiu com o objetivo de escutar, apoiar e orientar pacientes epiléticos. Também existe a proposta de lutar pelos direitos dos epiléticos. O fundador do grupo, Hélio Ferreira Sales, 34 anos, sentiu na pele os efeitos da falta de informação. “Tive uma infância muito restrita. Fui proibido de quase tudo pelo médico”, lembra. “Hoje, nós lutamos para conseguir mais medicamentos e profissionais especializados na rede pública de saúde, para garantir os direitos e a assistência devida ao paciente com epilepsia”, diz.

Serviço

Apepe - 3241.3617

Leia mais sobre epilepsia

www.lbe.com.br

www.epilepsia.org.br

Em caso de acidentes entre em contato com o serviço de resgate pelo fone 192

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Jornal do Commercio
Recife - 20.01.2002
Domingo