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LITERATURA II
Um legado rico, mas sem sucessor

Sem enxergar nenhum escritor que dê continuidade ao seu estilo, Hilda Hilst ganha uma reedição completa de sua obra, que sai pela Editora Globo

Ler Hilda Hilst é uma experiência da qual não se sai ileso. Consagrada em todos os formatos que exerceu, sua escrita está ‘alocalizada’ na história da literatura brasileira. Não pode ser facilmente enquadrada em escolas. Assim como Guimarães Rosa, criou sua própria forma de expressão, seu universo e obsessões. “Não” – direta e sem rodeios, responde à pergunta se enxerga algum outro autor no Brasil que tenha um legado literário semelhante ao seu.

Na sua Chácara do Sol, em Campinas, Grande São Paulo, Hilda Hilst é simpática aos pedidos de entrevista. Porém, com o tempo, passou a fazer algumas exigências: fala com o repórter apenas pessoalmente ou por e-mail. Não mais por telefone. E as entrevistas têm de ser curtas.

“A Globo é uma editora responsável. Acredito que vou ser lida, enfim. É a sensação de que finalmente vou ser distribuída”, declara, aliviada com a boa distribuição que seus livros começam a ter. Na verdade, Hilda nunca ficou sem editora, mas era quase como se fosse. Seus títulos saíam com tiragem reduzida, ínfima. Encerrada, não era mais reposta.

Nas prateleiras, seus livros agora vivenciam outro desafio: encontrar leitores. Autora considerada difícil (adjetivo, como um todo, relativo), Hilda agora está sujeita ao julgamento do público médio. “Claro que sim. Eu sou uma escritora, não uma física quântica. Aí, sim, eu teria dificuldade em ser compreendida (risos). Os meus amigos César Lattes, Newton Bernardes e Nelson Parada são físicos. Mário Schemberg, que também foi meu grande amigo, era um físico quântico. Eu os acho admiráveis.”

Para quem se acostumou a catar em sebos os livros da autora, tão inusitado quanto encontrar seus títulos tão facilmente é saber que, após tantas negativas, ela voltou a escrever. “Escrevo muito pouco, às vezes passam dias e escrevi só uma linha. Comecei, em dezembro de 1998, um texto chamado O Koisa. Vamos ver no que vai dar.”

EXPERIÊNCIA ESCURA – Muito oportuna a idéia de começar a reedição de Hilda Hilst pela novela A Obscena Senhora D, título que até é usado como uma espécie de segundo nome da autora – referência, nesse caso, à trilogia erótica que ela lançou na década de 90. O texto, de 1982, traz um aprimoramento dos experimentos com a linguagem, que ela havia iniciado nos anos 70, assim como um intenso questionamento religioso e, por conseqüência, existencial – já tratados na sua poesia.

A Obscena Senhora D consegue unir com perfeição as três formas narrativas que a autora produziu: poesia, ficção e teatro (perceba: o texto fica ainda mais forte se lido em voz alta). Sua trama é inusitada. Com a morte do marido (Ehud), a Senhora D, Hillé, decide viver no vão da escada, sem contado com o mundo. E, no caso, o ‘D’ vem de derrelição, que significa desamparo, abandono, sobretudo, de uma coisa móvel.

Quem nunca teve qualquer contato com a prosa de Hilda vai estranhar o desenrolar da trama e sua perfeita imperfeição: a história é quebrada, narrada com ‘bolhas’ de acontecimento e o tempo transcorre em um intenso vai-e-vem.

No primeiro parágrafo, a autora parece querer dizer que a linguagem, assim como a vida, a qualquer momento pode falhar: “Vi-me afastada do centro de alguma coisa que não sei dar nome, nem por isso irei à sacristia, teófaga incestuosa, isso não, eu Hillé também chamada por Ehud A Senhora D, eu Nada, eu Nome de Ninguém, eu à procura da luz numa cegueira silenciosa.”

Sobre a época em que escreveu a novela, Hilda lembrou: “Comecei A Obscena Senhora D num momento normal da minha vida, uma seqüência natural do que eu vinha fazendo no meu trabalho. Mas logo interrompi, porque minha vida se tumultuou muito. Eu me apaixonei por um homem que era esquizofrênico, mas eu não sabia disso quando me apaixonei. Foi uma relação muito difícil, onde vivi momentos terríveis e corri risco de vida. Continuei a Senhora D durante esse período tão tumultuado. Na edição francesa, L´obscène Madame D suivi de Le Chien, dedico o livro a esse homem, que algum tempo depois morreu assassinado, em Manaus.”

A edição nacional da novela também chega com uma dedicatória poderosa: “Dedico esse trabalho, assim como o anterior, e também meus trabalhos futuros (se os houver) à memória de Ernest Becker, por quem sinto incontida, veemente, apaixonada admiração.”

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Jornal do Commercio
Recife - 27.01.2002
Domingo