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Recife, 03/04/97
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ENTREVISTA / JOSÉ PIMENTEL
"Se eu fosse um cara besta diria:
Sou o maior!"
Cinco fotos de
José Pimentel
vestido como
Jesus Cristo
decoram a sala
da recepção da
Apacepe
(Associação dos
Produtores de
Artes Cênicas de Pernambuco), responsável pela
produção da Paixão de Cristo do Recife. Além delas,
no escritório do ator há mais dois pôsteres seus, ainda
jovem, encenando a Paixão, uma foto sua com a neta,
uma bandeira com uma ilustração, quando foi
homenageado pelo Baile das Artes e uma placa que
anuncia uma inexistente Rua José Pimentel. O ator e
diretor pernambucano que roubou a cena do global
Fábio Assunção admite que é narcisista, gosta de ser o
centro das atenções e não suportou ser trocado por
um ator do eixo Rio-São Paulo - que ele considera um
iniciante frente a sua experiência no espetáculo de
Nova Jerusalém. Motivado, Pimentel arregimentou a
classe artística local e colocou no mesmo palco atores
que antes nem se falavam. Mais: levou 70 mil pessoas
para o estádio do Arruda, que seguiram para lá não
para ver um personagem de novela, mas para assistir
ao drama da Paixão, ou, para conferir se Pimentel
conseguira erguer um espetáculo tão grandioso em
menos de dois meses. Agora, recebendo os louros da
vitória e preocupado com dívidas que não páram de
chegar, Pimentel está mais feliz e confessa que a
vitória tem gostinho de vingança, embora afirme que
esta não tenha sido sua intenção. Para resolver de vez
a questão com Plínio Pacheco, ele colocou uma ação
na justiça contra a Sociedade Teatral de Fazenda
Nova, da qual é sócio fundador. Falando sobre o novo
momento de sua carreira, Pimentel recebeu a repórter
Diana Moura Barbosa. Confira os melhores trechos da
entrevista exclusiva.
JORNAL DO COMMERCIO - De uma maneira geral,
como você avalia o sucesso obtido com A Paixão de
Cristo encenada no Estádio do Arruda?
José Pimentel - Acredito que esta peça foi um marco
para o teatro pernambucano. Acho que esta avaliação
não é exagerada. Hoje, criamos um grande espetáculo
para o Recife, onde não havia nada para se fazer
durante a Semana Santa. Também formamos um novo
mercado de trabalho para todos que fazem teatro em
Pernambuco. Além disso, reunimos a classe artística
pernambucana em torno de um mesmo projeto. Quem
está de fora, não percebe a dimensão deste fato, mas
juntamos grupos antagônicos, às vezes até rivais, do
teatro local. Isso vai ser bom para o entrosamento do
grupo e vai permitir que as pessoas troquem mais
informações e boas idéias. Mas o melhor de tudo é que
levamos um espetáculo bom, com preços baixos, para
toda a população recifense, inclusive os mais pobres,
que antes não tinham possibilidade de conferir esse
show.
JC - Por que só agora, depois de 19 anos encenando o
Cristo em Nova Jerusalém, você decide se voltar para a
população de baixa renda?
Pimentel - Porque eu estava lá. Foi preciso que eu
saísse, porque era necessário uma pessoas corajosa,
com garra para fazer esse espetáculo, alguém que
tivesse know how para montar algo tão grandioso. Eu já
tinha experiência e o grupo alcançou um bom resultado.
Por isso, o reconhecimento do público é tão grande. As
pessoas gritam meu nome no meio da rua. Todos que
foram assistir gostaram do espetáculo. O espetáculo
que começou a pouco tempo, sem dinheiro para mídia.
O que eu consegui foi por ajuda de amigos. Eu também
tenho que louvar a isenção da empresa Jornal do
Commercio - a TV, a rádio e o jornal - que me deu muito
apoio. O espaço que consegui no programa de Geraldo
Freire foi muito importante para mim.
JC - O sucesso de público e crítica alcançado pelo
espetáculo, repete-se também em termos financeiros?.
O dinheiro arrecadado na bilheteria será suficiente
para pagar as contas?
Pimentel - Sinceramente, nem fiz todas as minhas
contas ainda. Desde o dia da estréia que recebo
envelopes com notas para pagar. Até agora só pagamos
aos figurantes e ao Santa Cruz, proprietário do Estádio
do Arruda, que recolhia 25% da bilheteria na hora da
venda. Arrecadamos cerca de R$ 200 mil, que não é
suficiente para pagarmos tudo, mas vamos procurar
uma solução. Serei o homem mais feliz do mundo se
conseguir pagar a todos.
JC - Surgiu um boato de que você teria dito que se não
conseguisse pagar todos os credores, iria dar um tiro
na cabeça. Isso é verdade?
Pimentel - Não. Dar um tiro na cabeça, não. Eu disse
que ia embora para Cabo Verde. Iria para lá porque não
tem extradição.
JC - Você iria mesmo?
Pimentel - Não sei. Acho que iria. Se a coisa ficasse do
jeito que começou, acho que a esta hora você não iria
estar me vendo aqui, não. É porque eu sei que vai dar
para pagar as dívidas. Ficar devendo alguma coisa,
talvez eu fique, mas ficar devendo tudo, para mim era
um tiro na cabeça. O pior, todos os figurantes são de
Chão de Estrelas, perto lá de casa. Ficava imaginando
que eles iriam fazer fila para me cobrar.
JC - Qual sua reação, ao ver que o público estava
crescendo?
Pimentel - Quando começou aquele público pequeno
do sábado e do domingo, fiquei temeroso. Mas, no
fundo, tinha uma certeza que a partir da quarta-feira,
quando começasse a Semana Santa no Recife, o público
iria lotar o estádio. Até que, na sexta da Paixão, houve
uma coisa que eu não queria que acontecesse, as
pessoas voltaram com o ingresso comprado porque não
havia lugar. Hoje, tenho certeza que no próximo ano o
espetáculo não só vai se pagar, como será lucrativo e
os atores vão receber pelo seu trabalho. Este ano, os
atores fizeram um contrato de risco e só serão pagos se
sobrar alguma coisa no final das contas. Mas, muitos
nomes do elenco abriram mão de tudo.
JC - Como está sua rotina depois do espetáculo? Você
só pensa nas dívidas que tem que pagar?
Pimentel - Bem, na segunda-feira eu fui dar aula pela
manhã e à tarde, porque não queria me preocupar com
tanta coisa. A partir da terça, voltei para o escritório,
entrei na rotina. Até segunda eu ainda estava vivendo
do aplauso, um momento de glória. As pessoas falam
comigo no meio da rua e me chamam de héroi.
JC - Então, no mínimo, este espetáculo foi muito bom
para seu ego?
Pimentel - Foi, foi muito bom para o ego. Se eu fosse
um cara besta, ficaria mais besta ainda. Sou narcisista e
gosto de ser o centro das atenções, mas tenho uma
cabeça boa. Eu continuo a mesma pessoa, mas imagino
que uma pessoa despreparada pensaria que era a
melhor do mundo. Não é brincadeira, não, você terminar
um espetáculo e ouvir uma multidão gritando seu nome
e lhe agradecendo.
JC - Qual a lição que você tirou disto tudo?
Pimentel - Olhe, eu digo que ando com um menino
safado do meu lado, um adolescente. É por isso que
rechaço essas coisas de idade, que não têm
importância, porque na verdade eu me sinto sempre
jovem. É esse menino que age quando eu digo que
quero mudar o mundo. Eu disse uma vez, brincando,
que iria fazer a Paixão no estádio do Arruda. Depois,
pensei melhor e diss: "Por que não?". Na verdade, eu
precisava provar para mim mesmo que eu era capaz de
fazer um bom espetáculo. Que independente da cidade
de pedra de Fazenda Nova, eu iria encenar A Paixão de
Cristo. O sucesso desta peça foi muito bom para mim.
Eu testei minha criatividade, os potenciais do grupo que
trabalhou junto. Foi muita energia positiva que nos
colocou para frente.
JC - Se a intenção era testar sua capacidade, como você
avalia o sucesso obtido com a produção?
Pimentel - Vão dizer que sou... Mas acho que foi
competência, experiência, o know how de quem fez isso
por tanto tempo. Por isso, o resultado ficou bom, apesar
do tempo curto para finalizarmos tudo. Depois disso,
passei a acreditar um pouquinho em milagres.
JC - Durante estes meses em que ocorreram a sua
saída da Paixão de Fazenda Nova e a produção do
espetáculo do Recife, uma questão foi colocada em
segundo plano quando se falava no assunto. Você é um
dos sócios-fundadores da Sociedade Teatral de Fazenda
Nova, como fica sua situação na sociedade depois destes
episódios?
Pimentel - Eu não sei. Acho que como sócio fundador
não posso ser expulso da sociedade. Agora, eu entrei
com uma ação na Justiça do Trabalho pedindo uma
indenização, não pelo meu trabalho como produtor, nem
diretor, que por esse eu recebi, pouco mas recebi (ano
passado o cachê de Pimentel foi de R$ 2 mil. O contrato
de Fábio Assunção, este ano, foi assinado por R$ 5 mil,
mas comenta-se que ele ganhou muito, mas muito mais
do que isso). Eu quero receber o dinheiro por 30 anos
que passei enfurnado lá no escritório de Nova
Jerusalém. Durante o ano inteiro, as pessoas me
encontravam lá e eu resolvia tudo. A função do diretor
não é pagar contas, nem acertar cachê com atores ou
fazer compra de material elétrico e eletrônico. Eu vou
cobrar pelo meu trabalho como executivo. Na época da
inflação, várias vezes eu paguei contas de água e luz
para o escritório e recebia tudo depois da Semana
Santa, sem juros nem correção monetária. Eu fazia tudo
isso por amor. Eu queria estar lá. Eu dizia a Plínio que
não queria nada de lá, só queria que ele me deixasse
trabalhar lá. Minha vida está enterrada lá dentro.
JC - Por que esta vontade tão grande de permanecer
lá?
Pimentel - Tinha uma magia. Era o local. A gente tinha
começado aquilo tudo. Era uma vida que nós estávamos
colocando lá. Para onde eu olho ali tem minha mão. O
projeto de iluminação é meu, quadros de luz, o som.
Quantas madrugadas eu passei trabalhando em projetos
para a Sociedade Teatral. É por toda esta dedicação,
que digo que as dores de amor são mais dolorosas.
JC - Como é que está essa dor agora?
Pimentel - Ah, melhorou. Eu não senti falta da Nova
Jerusalém. Antes, eu me perguntava como iria agüentar
a Semana Santa sem aquela rotina de trabalho em
Fazenda Nova, vendo os anúncios na TV, lendo as
notícias nos jornais. Pois, durante as encenações no
Arruda, eu nem me lembrava da peça de lá. Eu ficava tão
ocupado e preocupado com a apresentação, que
esquecia o resto. Além disso, eu sabia que estava
fazendo uma peça melhor, mais emocionante, mais
bonita. A concepção de lá era mais pesada, a nossa era
mais mágica.
JC - Até que ponto as diferenças profissionais
afetaram seu relacionamento com Plínio Pacheco?
Pimentel - Muito. Hoje a gente nem se fala. Eu me sinto
mal com isso, porque eu gostava de Plínio, ele era meu
amigo. É o cara que eu mais respeitava. Gostava muito
dele. O problema é que entrou uma terceira figura na
história, Robinson Pacheco, filho de Plínio, que
complicou nossa situação. Robinho, com assessoria de
duas empresas, só sabia falar em dinheiro. Quando nós
fazíamos reuniões para falar em teatro, eles só sabiam
falar de dinheiro. Para eles, mesmo que o espetáculo
não seja considerado tão bom, trazer os atores da Globo
valeu a pena, porque ele conseguiram aumentar o
número do público. O problema é que as pessoas foram
ver um ator, e não o espetáculo. Eu não quero fazer isto.
Não sei se esta é a forma correta de fazer teatro.
JC - Sua saída de Nova Jerusalém iniciou quando eles
insistiram para que você deixasse o papel de Cristo.
Você pretende continuar como Jesus no espetáculo do
Recife?
Pimentel - Veja bem, estou numa situação complicada.
De qualquer forma, eu me tornei um emblema de toda
esta confusão e o público quer que eu continue. As
pessoas vêm conversar comigo e dizem que não tem
importância de eu estar velho. Eles dizem que eu sou o
Cristo deles. Por isso, acho que esta mudança tem que
ser gradual. Se no próximo ano eu dividir o papel com
outro ator, o público vai se acostumar aos poucos.
Afinal eu estou há 19 anos lá, as pessoas não
esquecem. Geraldo Freire comentou uma vez que eu já
me tornei um mito em relação àquele papel. Depois, eu
sabia que se fosse fazer qualquer coisa, teria que ser
este ano, porque em 1998, um espetáculo no Recife não
teria mais sentido. Não dava mais tempo para preparar
outro ator.
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