Junho 2000


Em jogo a geração de energia

por Etiene Ramos
Especial para o Jornal do Commercio

Os objetivos da transposição de levar a água do São Francisco para abastecimento humano e irrigação colidem com o principal uso do rio: a geração de energia pelo sistema hidrelétrico da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf). Em funcionamento há 52 anos, a Chesf é responsável pela eletrificação de 90% do Nordeste ou oito dos nove estados.

O sistema Chesf gera hoje 50 mil GWh (Gigawatt hora) e, segundo estimativas de técnicos do setor elétrico, a transposição média de 53 metros cúbicos por segundo (m³/s) reduziria a produção de energia em 2,5%. De acordo com o secretário nacional de Infra-Estrutura Hídrica, do Ministério da Integração Nacional, Rômulo Macedo, o impacto da transposição nas usinas da Chesf equivale a uma das termelétricas em construção no Ceará e no Rio Grande do Norte, e é inferior aos projetos de irrigação da Chesf.
A Chesf comanda um sistema gerador essencialmente hidráulico (96%), com capacidade de acumular 56 bilhões de metros cúbicos de água em seus reservatórios e que dispõe de um parque gerador de energia com capacidade instalada de 10.704.600 MW (megawats), produzidos por 14 usinas e duas termelétricas. Com este sistema, que utiliza também as águas do Rio das Contas (BA) e do Parnaíba (PI), a Chesf assume o posto de principal gestor dos recursos hidrícos do Nordeste, regularizando a vazão e controlando as cheias a partir de quatro grandes barragens - Sobradinho, Moxotó, Itaparica e Xingó.

Todo o sistema de geração de energia foi pensado a partir dos desníveis do Rio São Francisco. Do sonho do então ministro da Agricultura e Irrigação, Apolônio Sales que, em 1954, viu entrar em operação a primeira usina hidrelétrica de Paulo Afonso, na cachoeira de mesmo nome, à virada do milênio, a Chesf foi a protagonista de grandes mudanças. Para gerar energia e provar que o Nordeste tinha mercado consumidor, a autarquia uniu as tecnologias da engenharia civil, hidráulica, elétrica e ambiental e reconstruiu o curso do São Francisco à imagem e semelhança dos seus projetos hidrelétricos.

Neste processo, cidades viraram canteiros de obras e passaram a girar em torno da Chesf como Paulo Afonso, na Bahia, a pioneira, sede do complexo de quatro usinas de Paulo Afonso. Outras foram recriadas para abrigar os moradores das cidades que precisaram ser submersas - como é o caso de Petrolândia e Itacuruba, em Pernambuco e Rodelas e Chorrochó/Barra do Tarrachil, na Bahia, envolvidas no projeto Itaparica que une a geração de energia à irrigação permitindo o cultivo de várias culturas como cebola, feijão, tomate, melancia e algodão, além da criação de frangos e a implantação da piscicultura.

Até 1995, a Companhia concentrou investimentos na geração de energia. A partir daí, voltou-se para a transmissão, aplicando R$ 2 bilhões no maior programa de transmissão de sua história. Ele prevê a construção de 5.400 quilômetros em linhas de transmissão e 8.800 MVA de transformação.
Segundo o presidente da Chesf, Mozart Campos, essas obras equivalem a aproximadamente 50% do que já foi construído nos 50 anos de atuação da autarquia. “Ainda temos planos para geração de energia”, revela Campos.

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